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Das primeiras experiências em combate na Primeira Guerra Mundial até a consolidação, na Segunda Guerra Mundial, como um dos instrumentos mais determinantes da guerra naval moderna, os submarinos se transformaram em um meio de dissuasão, negação do mar e projeção estratégica difícil de igualar. A Guerra das Malvinas, em 1982, foi uma das demonstrações mais contundentes do valor do poder submarino, deixando lições que seguem válidas mais de quatro décadas depois.
Em especial, ao observar o que ocorreu nas águas geladas do Atlântico Sul, é possível extrair ensinamentos que continuam plenamente aplicáveis às doutrinas navais atuais. O conflito evidenciou, de forma direta, pontos centrais como a importância do adestramento e do estado de prontidão em tempos de paz, a manutenção correta dos meios e a disponibilidade real do material - aspectos que ainda representam desafios para a Argentina.
Dissuasão, sigilo e desgaste: as lições submarinas da Guerra das Malvinas
Integrando os dois lados do conflito, a arma submarina esteve no centro de alguns dos episódios mais relevantes da campanha. O caso mais marcante foi o afundamento do cruzador ARA General Belgrano (C-4) pelo submarino nuclear de ataque HMS Conqueror (S48). Essa ação confirmou o enorme potencial dos submarinos nucleares para influenciar o curso de uma campanha naval, ao produzir um efeito dissuasório que levou a Frota de Mar da Armada Argentina a recuar para áreas mais próximas do litoral, restringindo de maneira significativa sua capacidade de ação pelo restante da guerra.
HMS Conqueror (S48) e o efeito estratégico após o ARA General Belgrano (C-4)
O impacto do ataque não se limitou ao resultado tático: ele alterou o comportamento operacional da força de superfície argentina. Na prática, o risco imposto por um submarino nuclear em patrulha passou a condicionar decisões de emprego, deslocamento e permanência no mar, com efeitos persistentes até o encerramento das hostilidades.
ARA San Luis (S-32) na Guerra das Malvinas: limitações técnicas e presença decisiva
Ainda assim, a impressão de supremacia absoluta do poder submarino britânico encontrou um contraste na atuação do submarino дизel-elétrico Tipo 209 ARA San Luis (S-32). Mesmo operando em um ambiente extremamente exigente, a embarcação precisou lidar com restrições técnicas relevantes. Dos quatro motores дизel originais, apenas três estavam disponíveis - o que aumentava o tempo necessário para recarregar as baterias com o uso do snorkel e, consequentemente, elevava sua vulnerabilidade frente aos meios adversários de detecção. Para agravar o quadro, a pane no computador de controle de tiro VM8-24 deixou o navio sem um de seus sistemas mais importantes justamente ao iniciar as operações.
Apesar disso, o San Luis saiu em missão para cumprir uma patrulha de guerra de 39 dias, com uma tripulação preparada para operar e realizar reparos em seus sistemas sob condições de combate. O submarino foi carregado com dez torpedos antissuperfície SST-4, de origem alemã, e quatorze torpedos antissubmarino Mk-37 Mod 3, dos Estados Unidos. Sua atuação figura entre os capítulos mais relevantes da história submarina argentina. Trabalhando com soluções de tiro manuais e enfrentando diversas dificuldades técnicas, o navio conseguiu manter a força-tarefa britânica em alerta constante, obrigando-a a empenhar recursos significativos em guerra antissubmarino. O episódio mostrou como uma única plataforma silenciosa é capaz de limitar e condicionar as operações de uma força naval muito superior em quantidade de meios e em tecnologia.
As dificuldades com os torpedos SST-4, por sua vez, sintetizam uma das lições técnicas mais importantes da campanha. Diferentes problemas associados ao sistema de armas impediram que os ataques feitos pelo submarino alcançassem os resultados esperados. As falhas registradas reforçaram que não basta ter plataformas disponíveis: é indispensável contar também com sistemas de armas plenamente confiáveis e adequadamente testados antes de entrar em combate.
A realidade do seu “gêmeo”, o ARA Salta (S-31), foi bastante diferente. Durante o conflito, a unidade enfrentou problemas de vibração que comprometiam um atributo essencial de qualquer submarino: o sigilo. Além disso, surgiram dificuldades relacionadas à integração e à avaliação dos torpedos SST-4. Em consequência, a maior parte de suas atividades ficou concentrada em navegações de teste e em tarefas técnicas a partir do Arsenal Naval Puerto Belgrano, sem participação direta nas operações de combate.
A força submarina argentina em 1982 também contava com os veteranos submarinos da classe GUPPY. O ARA Santa Fe (S-21) teve participação relevante durante a Operação Rosario e, depois, nas Ilhas Geórgias do Sul. Em 25 de abril, foi atacado por helicópteros Westland Wasp e Westland Lynx da Royal Navy, que empregaram mísseis AS-12, torpedos e cargas de profundidade. Severamente avariado, o submarino conseguiu retornar a Grytviken, onde acabou retirado de serviço. Já o ARA Santiago del Estero (S-22) estava inativo quando o conflito começou.
No conjunto, a experiência das Malvinas comprovou que a simples presença de submarinos pode gerar uma influência estratégica desproporcional em relação ao seu número. Do lado britânico, os submarinos nucleares funcionaram como peça-chave de dissuasão contra uma força naval convencional. Do lado argentino, a atuação do San Luis evidenciou que até mesmo um submarino дизel-elétrico, operando com limitações, podia se tornar uma ameaça crível para um oponente tecnologicamente superior.
Da atualidade dos submarinos convencionais ao desafio argentino de recuperar capacidades
Essa lição segue atual no século XXI. Submarinos convencionais continuam a ser plataformas altamente eficazes, sobretudo em águas litorâneas e em cenários regionais. O menor custo de aquisição e operação, quando comparado ao de submarinos nucleares, somado à baixa assinatura acústica, faz dessas embarcações ferramentas especialmente adequadas para missões de vigilância, controle marítimo, dissuasão e negação do mar. Patrulhas silenciosas, máxima discrição e presença constante permanecem no núcleo do poder submarino.
Submarinos convencionais hoje: DESI, PROSUB e a corrida regional na América do Sul
A relevância dos submarinos convencionais não fica apenas no plano conceitual. O programa Diesel-Electric Submarine Initiative (DESI), da Marinha dos Estados Unidos, é uma evidência concreta: a participação regular de submarinos дизel-elétricos de marinhas aliadas permite treinar as forças norte-americanas contra plataformas que continuam extremamente difíceis de detectar e neutralizar.
Na América do Sul, as principais marinhas reagiram de forma coerente com esse cenário. O Brasil consolidou uma nova geração de submarinos com a incorporação das unidades da classe Riachuelo, baseadas no Scorpene, tendo como ápice do PROSUB o desenvolvimento do submarino nuclear Álvaro Alberto, primeira unidade desse tipo na região. O Chile, por sua vez, mantém uma capacidade submarina madura apoiada em dois Scorpène e dois Tipo 209. Já o Peru, maior operador desse modelo alemão, estende a vida útil de seus Tipo 209 por meio de sucessivos programas de modernização. Longe de perder importância, a arma submarina segue ocupando uma posição central no planejamento naval das principais potências marítimas da região.
Em contraste com esse movimento, a Armada Argentina está sem submarinos operacionais desde a perda trágica do ARA San Juan (S-42) em 2017. Com o histórico ARA Salta (S-31) atracado em Mar del Plata e sem navegar há mais de uma década, a desativação do “gêmeo” do San Juan - o ARA Santa Cruz (S-41) - e o fracasso do programa TR 1700, a recomposição dessa capacidade estratégica permanece como uma tarefa pendente. As próprias autoridades navais reconhecem que reconstruir uma força submarina exigirá anos de investimento, planejamento e formação de pessoal especializado. Afinal, recuperar o poder submarino não significa apenas incorporar novas unidades, mas também retomar um espaço estratégico que hoje segue vazio nas profundezas do mar argentino.
Imagens utilizadas apenas para fins ilustrativos.
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