Pesquisadores ainda divergem sobre se ele esconde uma mensagem autêntica ou se é apenas uma ilusão engenhosa, enquanto um experimento criptográfico recente testa como um escriba do século XV poderia ter produzido, desde o início, um texto tão desconcertante.
Um manuscrito que se comporta como uma língua, mas se recusa a falar
O Manuscrito Voynich veio à tona em 1912, quando o livreiro Wilfrid Voynich o adquiriu de uma coleção jesuíta na Itália. Mais tarde, a datação por radiocarbono situou o pergaminho entre 1404 e 1438. Desde então, esse códice compacto ganhou um status quase mítico entre decifradores de códigos.
Nas páginas, aparecem plantas retorcidas que botânicos não conseguem relacionar a espécies reais. Mulheres nuas se banham em tinas esverdeadas ligadas por tubos. Diagramas do zodíaco e mapas estelares lotam as margens. E, atravessando tudo, há uma escrita densa - apelidada de “voynichês” - que ninguém consegue ler.
À primeira vista, esse sistema gráfico lembra uma língua de verdade. O tamanho das palavras segue um padrão estável. Certos sinais se agrupam de modos que evocam sílabas ou morfemas. Em algumas folhas, há quebras claras de parágrafo, linhas bem organizadas e espaçamento consistente, como se alguém estivesse seguindo regras gramaticais.
Ainda assim, nenhum estudioso conseguiu relacionar esses padrões ao latim, ao italiano, ao hebraico, a um idioma inventado ou a qualquer sistema de codificação conhecido. Grupos já tentaram análise de frequência tradicional, criptografia clássica, computação por força bruta e aprendizado de máquina moderno. Nada produziu uma tradução que passe em verificações mínimas de plausibilidade.
“O voynichês se comporta como uma língua estruturada sob testes estatísticos, mas teimosamente se recusa a se encaixar em qualquer sistema linguístico conhecido.”
Essa contradição mantém a discussão acesa. Muitos especialistas acreditam que o manuscrito oculta uma língua natural codificada. Outros defendem um idioma construído para parecer real. Um grupo menor, mas persistente, suspeita de uma farsa sofisticada: um texto que imita a estrutura linguística sem carregar significado.
Há, porém, um obstáculo: para sustentar a hipótese da farsa, é preciso explicar de forma historicamente plausível como alguém poderia fingir tamanha complexidade apenas com pena e tinta. Até pouco tempo, essa parte do enigma soava vaga demais.
Uma cifra medieval feita com dados e cartas
O jornalista e pesquisador Michael Greshko tentou preencher essa lacuna em um estudo publicado na revista Cryptologia. Ele apresenta a “cifra Naibbe”, um sistema manual que gera texto no estilo do Manuscrito Voynich usando somente dados, baralho e tabelas de conversão que um escriba do século XV poderia desenhar à mão.
A Naibbe não pretende ser o método real por trás do manuscrito. Em vez disso, propõe uma pergunta mais direta: um especialista em cifras na Idade Média conseguiria produzir sequências de texto que, estatisticamente, se pareçam com o voynichês, sem matemática avançada nem aleatoriedade moderna?
Como a cifra Naibbe funciona na prática
Greshko parte de um texto-fonte comum em latim ou italiano. Em seguida, ele o quebra e o disfarça por meio de duas camadas de acaso controlado:
- Uma jogada de dado define como cortar o texto de origem em fragmentos de uma ou duas letras.
- Uma carta puxada do baralho escolhe qual tabela de substituição será usada para cada fragmento.
Cada tabela converte esses microfragmentos em glifos inventados que lembram, em certa medida, os caracteres do voynichês. Algumas tabelas são escolhidas com mais frequência do que outras, de modo que certos sinais passam a aparecer mais, reproduzindo a distribuição desigual de símbolos observada no manuscrito.
Essas regras empurram o resultado para palavras com comprimentos típicos, com combinações recorrentes e posições preferenciais para determinados glifos. Ao mesmo tempo, o vínculo entre fragmentos latinos e símbolos codificados embaralha o conteúdo a ponto de impedir recuperação. As frases originais desaparecem sob camadas de substituição ruidosa.
“A Naibbe mostra que um escriba com ferramentas simples de jogo e tempo sobrando poderia gerar páginas de texto com estrutura rica, semelhante à de uma língua, ao mesmo tempo em que apaga qualquer caminho direto de volta ao texto-fonte.”
O ponto central é a “aleatoriedade controlada”. Dados e cartas introduzem imprevisibilidade, mas as tabelas - e seus pesos - direcionam essa imprevisibilidade para um perfil estatístico reconhecível.
Por que a Naibbe parece surpreendentemente próxima do voynichês
Para avaliar a Naibbe, Greshko e outros analistas compararam seus resultados ao voynichês real em vários aspectos que especialistas acompanham com atenção.
Comprimento de palavras e frequência de símbolos
No voynichês, palavras com apenas um símbolo quase não aparecem. A maioria fica em uma faixa estreita de comprimento médio. Palavras longas existem, mas surgem em pequena quantidade. Esse padrão se destaca quando se faz uma contagem simples ao longo das páginas.
As regras de fragmentação da Naibbe reproduzem esse perfil de forma natural. Blocos de duas letras, convertidos por tabelas diferentes, tendem a formar palavras com um “corpo” familiar. Fragmentos de uma letra acrescentam variação, mas permanecem limitados por probabilidades subjacentes.
A frequência de símbolos sugere algo parecido. Alguns caracteres do voynichês predominam, enquanto outros são raros. As tabelas ponderadas permitem que Greshko ajuste o aparecimento de cada glifo para que as distribuições resultantes ecoem as do manuscrito.
Gramática falsa e ritmo visual
Outro mistério de longa data é o fluxo “parecido com gramática” no manuscrito. Certos inícios e finais de palavras se repetem. Alguns agrupamentos raramente atravessam quebras de linha. Outros parecem preferir começos ou finais de frase.
A Naibbe gera um tipo de pseudogramática quase como efeito colateral. Como a cifra muitas vezes transforma fragmentos separados em algo semelhante a um prefixo e um sufixo, muitas palavras produzidas compartilham “cascas” parecidas. As páginas passam a exibir padrões: aberturas recorrentes, terminações espelhadas, sequências de formas semelhantes.
“Você acaba com um texto que claramente segue regras, só que não regras que se mapeiem para qualquer língua falada - uma ilusão convincente de gramática.”
Greshko enfatiza que a Naibbe não deve ser confundida com uma “solução” para o voynichês. Ninguém pode pegar a saída do sistema, trocar símbolos e chegar a uma tradução legível do manuscrito. Em vez disso, a cifra funciona como um modelo de laboratório, testando até onde um escriba medieval poderia levar técnicas manuais.
O que isso significa para o grande debate sobre o Voynich
A Naibbe fica no ponto de encontro de duas narrativas concorrentes sobre o manuscrito.
- Visão do “texto com significado”: o livro codifica conteúdo real - receitas médicas, saber astrológico ou algo ainda mais incomum - em uma língua ou cifra ainda não quebrada.
- Visão da “ilusão projetada”: o livro simula uma estrutura semelhante à de uma língua sem transmitir uma mensagem estável, talvez como exercício intelectual ou curiosidade vendável.
Ao demonstrar um método funcional para o segundo cenário, a Naibbe torna esse campo mais difícil de descartar. Um escriba paciente do século XV, com dados, cartas e quadros de conversão, realmente poderia preencher um códice com um “nonsense” convincente que ainda passaria em muitos testes linguísticos.
Ao mesmo tempo, o modelo não elimina a possibilidade de significado genuíno. O sistema de Greshko ainda depende do latim ou do italiano como base escondida, mesmo que o resultado codificado não seja reversível na prática. Um autor histórico poderia ter feito algo semelhante, além de ajustar regras de maneiras que a Naibbe não capta totalmente.
O historiador de cifras René Zandbergen, que há anos disseca dados do Voynich, vê o experimento como um marcador de limites. Ele delimita o que era tecnicamente possível fazer à mão no início dos anos 1400 e onde teorias futuras precisam se encaixar para permanecerem críveis.
Da quebra de códigos à “fabricação de códigos” como ferramenta de pesquisa
A maior parte dos projetos sobre o Voynich perseguiu a decifração direta: encontrar a chave, ler o texto e encerrar o caso. A Naibbe inverte essa lógica. Em vez de tratar o livro apenas como uma mensagem trancada, ela o encara como um artefato construído, cujo processo de produção pode ser modelado e testado.
Essa mudança traz consequências práticas para o que vem pela frente.
Colocando novas teorias à prova com manuscritos sintéticos
Agora, pesquisadores podem trabalhar em dois trilhos: continuar atacando o manuscrito original e, ao mesmo tempo, gerar textos artificiais por sistemas do tipo Naibbe. Essas páginas sintéticas ajudam a responder perguntas como:
- Quais peculiaridades estatísticas do voynichês surgem naturalmente de regras simples?
- Quais padrões parecem específicos demais para resultar de uma cifra genérica desse tipo?
- Quantas horas de trabalho um escriba precisaria para preencher mais de 200 páginas com esse tipo de texto?
Esse último ponto é importante. Se as simulações mostrarem que um único autor conseguiria produzir o manuscrito em poucos meses de trabalho constante, a hipótese de farsa ou de “peça de exibição” ganha força. Se, ao contrário, o processo parecer lento a ponto de ser implausível, os pesquisadores podem voltar a considerar com mais peso um documento com finalidade prática.
O que o método sugere sobre conhecimento e jogos na Idade Média
A Naibbe também incentiva uma releitura do contexto cultural. Jogos de dados e as primeiras cartas de baralho se espalharam amplamente pela Europa no fim da Idade Média. Ao mesmo tempo, círculos instruídos brincavam com alfabetos secretos, quadrados mágicos, diagramas cabalísticos e mnemônicas experimentais.
Juntar ferramentas de jogo com cifras eruditas se encaixa perfeitamente nesse universo. Um patrono rico poderia encomendar um livro estranho e codificado como símbolo de erudição. Um polímata ou alquimista poderia concebê-lo como exercício mental privado ou objeto místico. A fronteira entre jogo, experimento e texto sério podia ficar nebulosa.
“Visto pela lente da Naibbe, o Manuscrito Voynich parece menos um artefato alienígena impossível e mais um produto extremo do fascínio do próprio tempo por regras, acaso e sentido oculto.”
Para onde a pesquisa pode ir a seguir
A Naibbe é apenas um desenho possível. Estudos futuros podem mexer nos controles: permitir fragmentos de três letras, ajustar os pesos das cartas ou misturar várias línguas de origem. Cada variação pode ser testada para ver o quanto se aproxima de diferentes seções do Voynich, que, por sua vez, variam por tema e estilo.
Modelos de aprendizado de máquina também podem ser treinados em grandes conjuntos de páginas geradas pela Naibbe. Isso ajudaria a separar padrões causados pela mecânica genérica de cifras daqueles exclusivos do manuscrito real. Se algoritmos falharem repetidamente nas páginas autênticas, mas lidarem com facilidade com as sintéticas, essa diferença pode indicar algo qualitativamente distinto no original.
Para leitores curiosos, o princípio da Naibbe até se presta a experiências práticas. Com um alfabeto impresso, um par de dados e um baralho barato, qualquer pessoa pode montar uma cifra pessoal, codificar um parágrafo de diário e ver a escrita se transformar em algo inquietantemente “à la Voynich”. O exercício deixa claro, em pouco tempo, como a estrutura pode sobreviver mesmo quando o significado se estilhaça.
Criptólogos, linguistas e medievalistas ainda têm um caminho longo antes de afirmar o que, se é que algo, o Manuscrito Voynich realmente nos diz. Ainda assim, ao mostrar como um “fabricante de códigos” medieval poderia pensar, a Naibbe desloca discretamente o terreno do debate - de “isso pode existir?” para “já que pode, qual história sobre sua criação faz mais sentido?”.
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