“Meu único arrependimento na vida é não ter bebido champanhe o bastante”, teria dito o economista e filósofo inglês John Maynard Keynes (1883–1946). Ao que tudo indica, pode haver um grão inesperado de verdade nessa frase.
Pense na cena: uma taça de champanhe - borbulhante, refrescante e, para muita gente, reservada a brindes e comemorações. Agora imagine a bebida a ser citada como possível aliada na prevenção da parada cardíaca súbita: um quadro em que o coração interrompe o batimento de forma abrupta, matando dezenas de milhares de pessoas todos os anos, muitas vezes sem qualquer aviso. Parece bom demais para ser real, não?
O que o estudo canadense observou sobre champanhe, vinho branco e parada cardíaca súbita
Ainda assim, um estudo canadense encontrou uma associação curiosa. Ao analisar dados de mais de meio milhão de pessoas no banco de pesquisas em saúde UK Biobank, os investigadores observaram que quem consumia quantidades moderadas de vinho branco ou champanhe apresentava menor risco de sofrer parada cardíaca súbita. O resultado chama a atenção, sobretudo porque é comum a ideia de que o vinho tinto - e não o branco - seria o que traz benefícios ao coração.
Para reduzir a possibilidade de se tratar apenas de coincidência, a equipa conferiu o achado com dados genéticos, e a ligação pareceu manter-se. Isso sugere que pode haver algo além do acaso a explicar a associação.
Mais de 100 fatores ligados ao risco (e até 63% dos casos potencialmente evitáveis)
A análise não se limitou ao vinho. O trabalho avaliou mais de 100 fatores de estilo de vida e do ambiente relacionados à parada cardíaca súbita, incluindo alimentação, prática de exercícios, poluição do ar, bem-estar emocional, composição corporal e níveis de escolaridade - todos já associados ao risco de forma independente. O recado do estudo foi claro: até 63% dos casos de parada cardíaca súbita poderiam, em tese, ser evitados com a correção desses fatores de risco.
Entre os elementos considerados protetores, alguns chamaram particularmente a atenção: consumo de frutas, uso regular do computador (sim, isso mesmo) e ingestão moderada de vinho branco ou champanhe - todos se associaram a menor risco de parada cardíaca súbita. O motivo, porém, ainda não está definido.
Uma hipótese é que o vinho branco contenha antioxidantes capazes de favorecer a saúde do coração. Outra possibilidade é que pessoas que escolhem essas bebidas também sejam, em média, mais abastadas e tenham maior probabilidade de adotar outros comportamentos saudáveis, como alimentar-se melhor, exercitar-se com regularidade - além de ter acesso a cuidados de saúde de melhor qualidade.
Álcool e coração: sinais mistos e um alerta necessário
Mas, antes de estourar uma rolha em celebração, vale o aviso: o álcool continua a ser um componente complexo - e por vezes contraditório - quando se fala de saúde cardiovascular. Outros estudos de grande escala apontam para uma relação em forma de U entre álcool e doença cardiovascular. Quem não bebe pode ter um certo nível de risco; quem bebe moderadamente, por exemplo uma taça de vinho por dia, pode observar algum benefício; já o consumo excessivo aumenta de forma acentuada o risco de hipertensão, AVC e insuficiência cardíaca.
Um estudo observacional com mais de 400.000 participantes chegou a indicar que até o consumo moderado poderia elevar o risco de arritmias, que em alguns casos podem levar à morte súbita.
Assim, embora o champanhe possa parecer um sinal promissor, ele está longe de ser uma solução “mágica”. A mensagem mais ampla do estudo foi direta: o que pesa mesmo é o conjunto do estilo de vida. Dormir melhor, manter atividade física regular e seguir uma dieta equilibrada reduziu de maneira importante o risco de parada cardíaca súbita - e poderia evitar quase um em cada cinco casos.
No sentido oposto, obesidade, hipertensão e stresse crónico estiveram entre os fatores de risco mais fortes, ao lado de menor escolaridade e exposição à poluição do ar. Esses resultados reforçam que prevenir a parada cardíaca súbita não depende apenas de hábitos individuais: também envolve os ambientes em que vivemos e as políticas que os moldam. Ar mais limpo, melhor educação e acesso mais fácil a alimentos nutritivos podem contribuir.
A parada cardíaca súbita não é totalmente aleatória. Muitos fatores que a influenciam podem ser modificados. Controlar o stresse, manter-se ativo, sustentar um peso saudável, dormir com qualidade - e, sim, talvez apreciar de vez em quando uma taça de vinho branco - tudo isso pode ajudar. Só que a força real está em acumular pequenas escolhas saudáveis ao longo do tempo. A prevenção raramente é uma mudança única; é o efeito somado de muitas.
E, se ficou a curiosidade: Keynes sofreu uma série de enfartes em 1946, começando durante negociações do empréstimo anglo-americano em Savannah, na Geórgia. Ele descreveu o processo como “um inferno absoluto”. Algumas semanas após regressar à sua casa de campo em Firle, East Sussex, morreu de enfarte aos 62 anos.
Talvez ele estivesse certo sobre beber mais champanhe, afinal.
David C. Gaze, Professor sénior (Senior Lecturer) em Patologia Química, University of Westminster
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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