Núcleos de gelo guardam um arquivo minucioso de temperaturas e condições atmosféricas de centenas de milhares de anos. Já nos trópicos, os vestígios são bem mais escassos - o que torna muito mais difícil reconstituir como a temperatura variou nessas regiões ao longo do tempo.
Um novo estudo ajudou a reduzir essa lacuna ao analisar uma formação antiga de caverna no Brasil. O trabalho indica que as temperaturas tropicais mudaram muito mais depressa do que os cientistas imaginavam durante um dos eventos climáticos mais marcantes da última Era do Gelo.
A descoberta quebrada
Em 2009, uma estalagmite apareceu quebrada em meio a um monte de escombros dentro da Caverna Rei do Mato, na savana do sudeste do Brasil.
Estalagmites crescem do chão da caverna para cima, camada após camada, à medida que a água rica em minerais pinga e deposita material.
Angela Ampuero, pesquisadora em paleoclima da Universidade de São Paulo (USP), e seus colegas reconheceram naquela rocha estratificada um registro oculto de temperatura. Cada faixa havia aprisionado minúsculas porções da própria água que a formou - e o que tornou a amostra especialmente valiosa foi o período que ela cobria.
Uma datação cuidadosa mostrou que a rocha se desenvolveu de forma contínua de cerca de 22.500 a 9.300 anos atrás, atravessando toda a deglaciação: o longo aquecimento que marcou a transição da última Era do Gelo para o mundo mais quente que conhecemos hoje.
Bolhas e lasers
O segredo está nessas gotículas presas, chamadas pelos cientistas de inclusões fluidas: bolsões microscópicos de antiga água de gotejamento selados dentro do cristal.
Quando são analisadas da maneira certa, essas inclusões permitem reconstruir o quão quente estava a caverna no momento em que cada bolsão foi fechado.
Medir isso exige um laser e bastante paciência. Os pesquisadores resfriam um bolsão até a água ficar no limite de formar bolhas, então disparam um pulso de laser para induzir a bolha e, em seguida, aquecem o sistema até que ela desapareça.
A temperatura em que a bolha some indica quão quente era a caverna no passado. O procedimento foi repetido em cerca de 40 gotículas por camada, ao longo de 21 fatias da coluna, e depois os valores foram combinados em uma média.
Esse método trouxe uma precisão rara. Para esse intervalo de tempo, muitas estimativas tropicais têm incertezas maiores que 1,7 °C, enquanto aqui cada ponto ficou definido com uma fração de grau.
Dez graus mais quente
Quando as camadas são organizadas em sequência, a história fica nítida. A caverna passou de cerca de 14,4 °C, no período mais frio da Era do Gelo, para aproximadamente 20,0 °C na fase quente que começou por volta de 10.000 anos atrás.
O resultado também concorda com uma estimativa anterior baseada em águas subterrâneas do nordeste do Brasil. O que os registros mais antigos não conseguiam enxergar eram as oscilações menores escondidas dentro desse aquecimento gradual.
A curva de Ampuero sobe em dois grandes degraus, interrompidos por um resfriamento breve em torno de 14.000 anos atrás.
Essa queda coincide com a Reversão Fria Antártica - uma pausa curta no aquecimento do hemisfério sul que também ficou registrada em geleiras e lagos dos Andes.
Ainda que o resfriamento tenha sido pequeno, a caverna o registrou. Um frio sutil permaneceu aprisionado na pedra por 14.000 anos.
Um tranco repentino
O segundo degrau é o ponto em que o registro se torna realmente impressionante. No momento em que começou um forte resfriamento no hemisfério norte conhecido como Dryas Recente, cerca de 12.900 anos atrás, a caverna esquentou aproximadamente 1,4 °C em apenas dois séculos.
Em termos naturais, isso representa um empurrão intenso para cima. Evidências indicam que mudanças no Oceano Atlântico explicam esse aquecimento.
Quando a grande circulação de revolvimento do Atlântico desacelera, o calor tende a se acumular no Atlântico Sul.
Testemunhos de lama do fundo do mar mostram sinais de que a circulação de revolvimento do Atlântico quase parou. Os pesquisadores avaliam que esse calor retido então avançou sobre o continente e elevou a temperatura registrada na caverna.
A mesma desaceleração também teria aumentado as chuvas na região, o que poderia resfriar o ambiente sob maior nebulosidade. Porém, a estalagmite aponta o contrário.
O aquecimento continuou mesmo durante os períodos mais chuvosos, sugerindo que precipitação e temperatura seguiram trajetórias separadas, em vez de uma anular a outra.
Mais lento do que hoje
A comparação com o presente é o aspecto mais incisivo do estudo. Mesmo o impulso natural mais rápido observado - o pico durante o Dryas Recente - ocorreu em um ritmo menor do que o aquecimento que esta região registra desde 1980.
Termômetros próximos à caverna indicam uma alta de quase 0,33 °C por década. Ou seja, o aquecimento atual aqui é mais que duas vezes mais veloz do que o ritmo mais acelerado que a deglaciação conseguiu produzir. A explicação é direta.
Hoje, o dióxido de carbono aumenta quase 19 partes por milhão por década - uma elevação muito mais íngreme do que qualquer subida natural registrada nas medições do passado profundo.
E essa diferença tende a aumentar. Como o clima ainda não respondeu por completo ao carbono já presente na atmosfera, os autores esperam que a taxa de aquecimento continue crescendo por décadas antes de estabilizar.
Entendendo o alerta
Pela primeira vez, a porção centro-leste da América do Sul conta com um registro de temperatura em terra tropical preciso o suficiente para acompanhar mudanças ao longo do tempo com confiança.
Ele fixa o aquecimento total em torno de 5,6 °C e captura um salto súbito impulsionado pelo oceano - um detalhe que métodos anteriores haviam suavizado até virar apenas uma tendência pouco definida.
Essa precisão transforma a caverna em uma referência. Modelos usados para projetar o futuro da região agora podem ser confrontados com um registro local sólido.
Assim, o estudo oferece uma referência direta do lugar, sem depender apenas de estimativas indiretas. Um trabalho separado relaciona esse cenário a um estresse crescente no norte da Amazónia.
A mensagem mais profunda diz respeito à velocidade. O fim da Era do Gelo foi um período de mudanças climáticas naturais intensas; ainda assim, o aquecimento causado por ações humanas está a ocorrer em um ritmo ainda mais rápido, sem sinais de desaceleração.
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