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Depois do meio-dia de hoje, um Hércules C-130 da Força Aérea Argentina decolou com destino à Venezuela levando, a bordo, uma nova patrulha USAR (Urban Search and Rescue) e uma planta potabilizadora do Exército Argentino. Este será o terceiro voo de ajuda que sai do nosso país dentro da assistência humanitária que a Argentina vem executando desde que, em 24 de junho, dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 atingiram, com apenas alguns segundos de diferença, a costa norte venezuelana, causando um número elevado de vítimas e destruição - um impacto que ainda continua aumentando.
Nesta rotação, embarcam militares do Regimento de Infantaria de Montanha 22 e do Batalhão de Engenheiros de Montanha 8, além de uma planta de potabilização de água que reforça o esforço. Na semana passada, a Infantaria de Marina já havia partido com quatro binômios caninos, dentro do pacote de apoio anunciado pelo Governo nacional assim que a dimensão da catástrofe se tornou conhecida: médicos emergencistas, ambulância, enfermeiros, drones para localizar estruturas colapsadas e duas plantas potabilizadoras com 16 operadores do Exército.
Ontem, pudemos acompanhar a preparação desse deslocamento e conversar com parte do efetivo que, em poucas horas, embarca rumo à Venezuela.
“Nossa missão é chegar à zona de trabalho”
A patrulha chegou um dia antes a Campo de Mayo, vinda de San Juan, onde fica a sede do Regimento de Infantaria de Montanha 22. À frente está o primeiro-sargento Ruso, comandante da equipe de busca e resgate, que descreve sua função com a objetividade de quem já a tornou rotina: “Minha missão é chegar ao local, à zona de trabalho, entrar no lugar; se, pela observação, eu detectar alguma vítima, marcar o ponto e, se não, garantir que o restante da equipe e o binômio não se tornem vítimas do lugar onde aconteceu a catástrofe”.
Nada aqui é feito no improviso. Por trás, existe uma cadência semanal de treinamento que mistura resgate em altura - vários integrantes, inclusive, atuam como instrutores de montanhismo - com atividades de busca ao lado do binômio canino, que treina em cenários simulados com vítimas sob estruturas colapsadas.
Jack e Derek, os binômios que vão procurar vida sob os escombros
Entre os integrantes, há dois binômios caninos - e cada um carrega sua própria trajetória. Derek tem oito anos e trabalha com o sargento Matías Vargas desde que os dois se conheceram na Companhia de Polícia Militar 600, em Buenos Aires. Depois, foram designados juntos para San Juan, área sísmica onde o Exército mantém sua patrulha USAR em prontidão. “Derek é um cão de busca e resgate de pessoas vivas em estruturas colapsadas”, explica Vargas; mas, ao falar do que o animal representa para ele, a resposta ganha um tom pessoal: “Derek é tudo, é muito importante para mim e para a minha família. Ele me deu muitas alegrias”.
Segundo ele, a relação se consolida na prática diária: “É um trabalho de confiança, de confiar nele, e ele também confiar em mim. Sempre oferecer segurança às pessoas”. E, diante do que vem pela frente, ele é direto: “Vamos dar todo o apoio que pudermos ao pessoal que está na Venezuela e fazer todo o possível para que tudo saia bem”.
Este envio tem ainda um componente especial: será a despedida de Derek. O binômio viaja à Venezuela no que será, ao mesmo tempo, seu batismo de fogo em uma missão internacional e sua última missão ativa antes da aposentadoria.
O segundo binômio é Jack, que atua com o sargento Matías Méndez e integra o Batalhão de Engenheiros de Montanha 8.
Água segura em meio ao desastre
Enquanto a patrulha de busca e resgate finaliza os últimos ajustes, a poucos metros dali outra equipe corre contra o tempo com uma tarefa diferente, porém tão decisiva quanto: assegurar água potável em um cenário onde a infraestrutura entrou em colapso. A coordenação está com o major Víctor Julián Díaz, chefe da Companhia de Engenheiros de Água 601, sediada em Campo de Mayo e subordinada ao Grupamento de Engenheiros 601.
“Aqui podemos ver uma planta potabilizadora por osmose reversa, com ensacadora”, descreve Díaz, diante do equipamento que, em poucas horas, seguirá para a Venezuela. “A missão principal da companhia de engenheiros de água é a captação, o tratamento, o armazenamento, o ensacamento e a eventual distribuição da água. Nós nos encarregamos de fornecer água segura ao contingente que estiver desdobrado”.
Atualmente, o Exército Argentino dispõe de cerca de 35 plantas potabilizadoras por osmose reversa distribuídas por diferentes unidades do país, além de outras 10 com maior capacidade e volume de produção. Não é a primeira vez que esse tipo de recurso cruza fronteiras para apoiar uma emergência: já esteve no Brasil, atuou na emergência de Bahía Blanca e, em 2019, prestou assistência durante os incêndios na Bolívia.
Desde que a ordem de preparação chegou, na quinta-feira passada, o ritmo foi ininterrupto: “O pessoal está trabalhando a todo vapor para poder disponibilizar a melhor capacidade, que seja eficiente e que tenhamos o melhor material: levar os filtros correspondentes, os químicos, e ter quantidade suficiente para atender não apenas a tropa, mas eventualmente também a população, se for necessário”, relata Díaz.
O destacamento que viaja é formado por 16 pessoas: dois bioquímicos da Direção Geral de Saúde, responsáveis por certificar que a água produzida atende aos parâmetros exigidos; dois mecânicos de engenharia, que solucionam em campo qualquer falha em um material tão técnico; e o restante, operadores sob comando de um oficial - suboficiais que não só operam essas plantas, como também são os responsáveis por instruir o restante do Exército em seu uso.
Antes da despedida, Díaz fala em tom mais pessoal: “É um orgulho, de verdade, poder contar com um efetivo desse nível. É admirável trabalhar com pessoas com qualidade técnica suficiente e, sobretudo, pessoal, porque numa assistência humanitária como essa a gente acredita que precisa enviar o melhor, e claramente o Exército Argentino e a Arma de Engenharia, neste caso com esse efetivo, têm o melhor”.
Por fim, no meio de resgatistas e binômios caninos, há também uma enfermeira. É a cabo Lucero, do Regimento de Infantaria de Montanha 22, que prefere não se colocar em um lugar diferente do grupo: “Sou mais uma integrante, faço parte da patrulha”. Ela conta que são onze, ao todo: “Temos dois binômios, que são o guia e o cão; temos o chefe da patrulha e diferentes integrantes resgatistas; além do enfermeiro veterinário, que fica com os cães, e a enfermeira, que seria eu”.
A preparação, como ocorre com seus companheiros, é contínua: “Temos instrução várias vezes por semana sobre a patrulha”. E, embora sua função formal seja da área de saúde, ela deixa claro que, em campo, o papel vai além: “Tenho diferentes funções na unidade e, por fazer parte da patrulha, eu já seria parte deles, eu estaria com eles”. Com o arnês de descida já colocado, pronta para o resgate, a cabo Lucero se prepara para entrar no trabalho de terreno como qualquer outro integrante da equipe.
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