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Chile e Brasil: a cooperação em defesa após a reunião em Santiago

Dois homens de terno se cumprimentam em escritório com bandeiras do Chile e Brasil, mapa e drone na mesa.

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Visitas entre ministros da Defesa quase sempre acabam resumidas em notas oficiais cheias de bons propósitos: cooperação, integração, troca de experiências e fortalecimento de laços bilaterais. Ainda assim, há encontros que pedem uma leitura menos automática. A reunião em Santiago entre o ministro da Defesa do Chile, Fernando Barros, e o ministro da Defesa do Brasil, José Mucio Monteiro Filho, entra nessa categoria.

No papel, os assuntos parecem os de sempre. Indústria de defesa, cibersegurança, controle de fronteiras e cooperação institucional fazem parte do repertório habitual de qualquer ministério. O que muda aqui é o momento em que a conversa acontece. O ambiente internacional de hoje é muito diferente do de apenas cinco anos atrás - e isso está empurrando os Estados a reverem, com urgência, como montam e sustentam suas capacidades estratégicas.

A guerra na Ucrânia deixou um recado que muita gente não tinha dimensionado antes de 2022: até potências de grande porte podem sofrer para manter cadeias logísticas funcionando em um conflito longo. Falta de munições, dependência de fornecedores externos e limites da indústria para reagir com rapidez levaram vários países a reformular políticas de defesa. Desde então, “autonomia” deixou de ser um termo acadêmico e virou prioridade.

Dentro desse quadro, a aproximação entre Chile e Brasil ganha outro peso. Não é apenas sobre reforçar vínculos políticos ou militares; é, sobretudo, sobre investigar caminhos para criar capacidades próprias em uma região que, historicamente, dependeu de fornecedores de fora para equipar suas Forças Armadas.

Ao olhar para o Brasil, um erro comum é reduzir a cooperação ao tamanho das suas Forças Armadas. É verdade que o país tem o maior orçamento de defesa da Ibero-América e o maior efetivo militar da região. Mas o ativo estratégico decisivo é outro: uma base industrial de defesa construída e consolidada ao longo de décadas.

Enquanto grande parte da América Hispânica segue quase totalmente dependente de tecnologia importada, o Brasil estruturou um ecossistema capaz de conceber, produzir e exportar sistemas militares com elevado nível tecnológico.

O caso mais conhecido é a Embraer. Sua divisão de defesa fabrica o avião de transporte KC-390 Millennium, plataforma que já opera em diversos países e disputa espaço diretamente com modelos tradicionalmente dominantes no mercado internacional. A isso se somam radares, sistemas de vigilância, mísseis, veículos blindados, soluções de guerra eletrônica e um programa robusto de construção de submarinos, que inclui o futuro submarino de propulsão nuclear brasileiro.

Nada disso aconteceu por acaso. Trata-se do resultado de uma política de Estado mantida por décadas, na qual a defesa também foi tratada como alavanca de inovação, pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

Para o Chile, a conversa abre uma janela interessante.

Por muitos anos, o país montou Forças Armadas modernas por meio de aquisições, sobretudo, na Europa e nos Estados Unidos. Esse caminho garantiu capacidades de alto padrão, mas também criou uma dependência significativa de fornecedores externos para manutenção, peças de reposição e atualização de sistemas.

A experiência internacional mais recente mostrou que essa dependência pode virar vulnerabilidade quando cadeias logísticas são impactadas por guerras, sanções económicas ou restrições comerciais.

Nesse sentido, cooperar com o Brasil pode ser lido como uma forma de reduzir riscos e ampliar o leque de opções estratégicas.

Isso não implica trocar fornecedores tradicionais nem alterar alianças internacionais. Significa adicionar um parceiro regional com capacidades industriais em expansão - e que pode se tornar um aliado importante em projetos conjuntos de desenvolvimento tecnológico.

É aí que entram instituições chilenas como a ENAER, a ASMAR e a FAMAE. A experiência acumulada por elas em manutenção, modernização e produção especializada pode se combinar com a musculatura industrial brasileira em iniciativas vantajosas para ambos os lados.

A indústria de defesa já não é apenas defesa

Há um ponto que costuma ficar fora do debate público.

Há tempos, a indústria de defesa deixou de produzir somente equipamento militar. Hoje ela desenvolve tecnologias que também servem ao uso civil em áreas como telecomunicações, inteligência artificial, materiais compósitos, observação por satélite, navegação, cibersegurança e sistemas autónomos.

Portanto, investir em capacidades industriais de defesa também significa impulsionar setores tecnológicos que, depois, acabam irrigando a economia como um todo.

O Brasil entendeu essa lógica há bastante tempo.

O Chile, por sua vez, apenas começa a discuti-la com mais força.

Não é por acaso que a cibersegurança ocupou lugar central na reunião ministerial.

As ameaças atuais não se restringem a um confronto convencional. Ataques a infraestrutura crítica, roubo de informação estratégica, sabotagem digital e campanhas de desinformação já fazem parte do repertório de conflitos contemporâneos.

O Brasil desenvolveu competências relevantes nesse campo, em especial a partir da organização de eventos internacionais como a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos do Rio 2016, quando precisou proteger sistemas críticos contra ameaças cibernéticas.

O Chile, por sua vez, reforçou sua institucionalidade com uma nova legislação e com uma política nacional de cibersegurança que reconhece esse domínio como componente essencial da segurança do Estado.

A cooperação entre os dois países pode virar exercícios combinados, troca de inteligência técnica e criação de protocolos comuns para responder a incidentes de grande escala.

Fronteiras: uma preocupação compartilhada

O controle de fronteiras também surge como prioridade natural.

O Brasil faz fronteira com dez países e administra uma das malhas fronteiriças mais extensas do planeta.

O Chile enfrenta um quadro diferente, mas igualmente desafiador, marcado pela expansão do crime organizado transnacional, do tráfico ilícito e pela pressão migratória no norte do país.

Ainda que as respostas recaíam principalmente sobre órgãos de segurança pública, as Forças Armadas têm assumido um papel cada vez mais relevante por meio de vigilância, apoio logístico, monitoramento tecnológico e controle territorial.

Trocar experiências sobre esses desafios tem um valor prático evidente.

Das palavras aos projetos

Talvez o maior obstáculo desta nova fase não seja político, e sim administrativo e financeiro. A região tem uma longa tradição de memorandos de entendimento que nunca chegaram a virar programas reais.

A distância entre uma declaração bem-intencionada e uma associação estratégica está na capacidade de financiar projetos, compartilhar tecnologia, formar capital humano e sustentar políticas públicas ao longo de vários governos.

Esse será o teste de verdade para Brasil e Chile. Se a cooperação ficar limitada a intercâmbio de delegações e encontros periódicos, o impacto tende a ser restrito.

Se, ao contrário, se transformar em programas industriais, pesquisa conjunta, interoperabilidade e desenvolvimento tecnológico, os dois países podem estabelecer as bases de um relacionamento muito mais profundo - com efeitos duradouros sobre a segurança regional.

As palavras do ministro brasileiro José Mucio Monteiro Filho - “Brasil precisa do Chile” - provavelmente capturaram melhor do que qualquer comunicado o espírito desta reunião.

Não é uma frase apenas diplomática. Ela expressa o reconhecimento de que nenhum país da região consegue, sozinho, encarar os desafios estratégicos do cenário internacional.

O Brasil traz escala industrial, capacidade tecnológica e liderança regional.

O Chile oferece instituições de defesa altamente profissionalizadas, experiência operacional, uma localização geográfica privilegiada entre o Pacífico, a Antártica e o Cone Sul, além de uma tradição reconhecida em planejamento estratégico.

São forças diferentes, mas que se encaixam.

A questão já não é se existe espaço para cooperação. Esse espaço está disponível há anos. A dúvida é se haverá vontade política e continuidade institucional suficientes para transformar essa cooperação em política de Estado.

Porque, no fim, o valor real da reunião em Santiago não está nos anúncios nem na fotografia oficial. Está na chance de abrir uma fase em que Chile e Brasil deixem de se enxergar apenas como parceiros diplomáticos e passem a atuar como parceiros estratégicos em um tema tão sensível quanto a defesa. Se isso se concretizar, a visita de José Mucio Monteiro Filho pode ser lembrada como o início de uma relação mais profunda, num momento em que a estabilidade regional depende cada vez mais da capacidade dos países sul-americanos de gerar confiança, desenvolver tecnologia própria e construir respostas comuns para desafios compartilhados.

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