Na tarefa nada simples de conceber um programa expositivo para o presente, a etimologia tem servido como aliada preciosa - e não é difícil entender o motivo. Assim como ela, a curadoria volta às origens de conceitos e imagens, costura sentidos diversos e faz surgir - ou revela - vínculos improváveis.
No ponto de partida do programa curatorial da bienal Anozero, em Coimbra, que nesta edição celebra dez anos, está um antigo termo indo-europeu: ghabh. Por trajetos distintos, esse vocábulo desembocou em palavras equivalentes a “segurar”, “dar” e “receber”. E é justamente nessa convergência que se reconhecem as intenções dos curadores desta edição, como elementos de uma política do comum.
Anozero Coimbra 2026: habitar como ideia ampliada
Hans Ibelings e John Zeppetelli assumiram o desafio de organizar uma exposição plural que, de algum modo, traduza o que significa viver no mundo turbulento de 2026. Como de costume, a bienal se distribui pelo Mosteiro de Santa Clara-a-Nova e por mais sete espaços da cidade, tomando a arquitetura como referência para uma noção mais abrangente de habitar.
Por trás disso está a premissa de que a arte ainda pode carregar um desejo de coabitação e de regeneração: das comunidades, de seus fundamentos éticos e das formas de partilha que as estruturam, das condições materiais que as mantêm - e também uma resposta à complexidade planetária de um mundo que, nos últimos dez anos, só piorou. Como em qualquer agenda regeneradora, o começo só pode ser a empatia.
Som, luto e empatia no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova
Essa empatia se impõe logo na travessia do longo corredor do Mosteiro: na penumbra, somos guiados por um coro de vozes de carpideiras de 15 culturas diferentes, instalado ali pela artista norte-americana Taryn Simon. A intensidade sombria do trabalho compõe uma das presenças mais marcantes da bienal e, sob seu impacto, torna-se evidente a urgência de voltar a sentir e… escutar.
Não por acaso, o som aparece como matéria essencial em várias outras obras. Ele reforça o clima escuro que recobre as asas gigantes na escultura de Rui Chafes, agora atravessada pela música da banda de black metal Candura; interpela quem visita a instalação de Luísa Cunha na intimidade de um banheiro; faz lembrar poetas perseguidos ou assassinados na enumeração de Shilpa Gupta; dá vida às esculturas de Vasco Araújo ao tecer uma trama de perguntas existenciais; e ainda costura depoimentos e narrativas na instalação densa, de espessura arqueológica, que Maria Trabulo construiu a partir do contexto sírio (Convento de São Francisco).
Arquitetura e espaço como pilares da bienal
Se em edições anteriores o tema já surgia de modo insinuante, em 2026 espaço e arquitetura parecem firmar-se como as colunas mais consistentes da Anozero. Isso faz sentido: a arquitetura - seus códigos, tipologias, marcas sociais e aspirações embutidas - compõe um retrato e captura o movimento das sociedades como poucos outros fatores.
Em Coimbra, diversos trabalhos conduzem o público a pensar como arquitetos lidam com lugares já existentes, muitas vezes carregados de história e identidade, e também como seus protocolos podem se misturar aos da escultura.
Essa atenção pode voltar-se à memória dos espaços (Arturo Franco Díaz) ou à ressignificação de objetos (Kosmos). Pode estimular encontros e novos laços sociais (Inside Outside); reencontrar respostas sociais de um período específico (Carlos Ferrand Zavala) ou reativar referências ideológicas históricas (Anarchism and Planning); funcionar como laboratório para imaginar o outro (como no projeto de projetos Xenia); buscar arquétipos universais sem apagar a diferença (nas casas e abrigos de Pezo von Ellrichshausen); ou até instaurar meditações existenciais que produzem uma natureza “amplificada” (como as do coletivo Centrala).
Momentos singulares: luz, hipercubo e fogo invertido
Há, ainda, passagens mais idiossincráticas - e muitas vezes as mais significativas justamente por serem difíceis de enquadrar. Em “Marrow”, Christian Andersson apresenta uma figura humana de gesso erguendo um hipercubo, enquanto uma luz que sai do crânio ilumina a forma geométrica: uma reflexão filosófica materializada a partir das condições de luminosidade.
A luz também estrutura toda a mise-en-scène do filme “Controlled Burn”, de Julian Charrière: um serpentear feérico e apocalíptico de fogos de artifício invertidos sobre complexos industriais.
Subjacente nesta edição da bienal está a ideia de que a arte é ainda um veículo de vontade de coabitação e regeneração das comunidades
Falando em apocalipse, em “The Desert Turned to Glass”, Charles Stankievech faz um meteorito em tamanho real pairar a um palmo do chão coberto de areia, instantes antes de o impacto transformar essa areia em vidro. Embora a imagem de Stankievech tenha tudo para operar como metáfora política, Jonathas de Andrade propõe, em “O Peixe”, uma relação diferente com o mundo.
Com estética epidérmica, o filme de Andrade acompanha o ritual de uma aldeia do nordeste brasileiro em que pescadores abraçam e confortam os peixes antes de devolvê-los ao rio. Nesse gesto holístico se condensa um elo - por vezes ambíguo - entre habitante e habitat, entre humano e ambiente, que precisa ser refeito. Andrade aponta isso de modo mais poético do que retórico.
Núcleos pela cidade: ecologia, gesto e política
Fora do Mosteiro, a exposição no prédio-sede do CAPC reúne o conjunto mais atento à dimensão ecológica e à comunhão com a natureza. A catalã Fina Miralles e Alberto Carneiro foram, nos anos 70, dois pioneiros da arte ambiental. De Miralles, são exibidas fotografias em que ela experimenta um estado de fusão emocional e física com árvores e outros elementos naturais. Já as esculturas delicadas de madeira de Alberto Carneiro estendem esse programa para o século XXI, enquanto o vídeo de Pedro Vaz - uma imersão quase impressionista em uma floresta - confirma como essa sensibilidade se fortaleceu na contemporaneidade.
No edifício Chiado, aparece um núcleo de artistas que, em meios distintos, compartilham a investigação do gesto e da figura humana. Entre outras participações, a mostra traz desenhos espectrais de Adriana Molder e uma pintura de sensibilidade expressionista do transvanguardista Sandro Chia, mas o grande destaque recai sobre os desenhos do marfinense Frédéric Bruly Bouabré, que inscrevem figuras em uma lógica linguística com energia narrativa notável.
No CAPC Sereia, concentra-se o núcleo mais explicitamente político, dedicado à ideia de genocídio e com referências recorrentes à situação em Gaza. Nas três propostas, fala-se de políticas de morte, de território e fuga, de despossessão e perseguição. Na série impactante “Just in Case”, Taysir Batniji fotografou chaves de casa e reuniu depoimentos de palestinos que deixaram suas moradias para trás ao fugir de Gaza; Thomas Demand exibe três fotografias com situações paradoxais que expõem o absurdo da agressão; Adam Broomberg e Rafael Gonzalez apresentam imagens de oliveiras que demarcam o território simbólico da identidade palestina. Já os filmes do coletivo Forensic Architecture registram a queda de panfletos com ultimatos de bombardeio sobre a população palestina e os trajetos de um êxodo desesperado.
Na Sala da Cidade, é apresentada “The Stendhal Syndrome”, de Nan Goldin, uma das fotógrafas americanas mais celebradas. A peça musicada é um diaporama de 2024, com quase meia hora, que combina imagens da história da arte com fotografias íntimas de seus amigos. Rostos e corpos do passado e do presente se iluminam e se fundem, criando um elo entre beleza e afetos que encarna, de maneira essencial e redentora, o espírito da bienal.
Lema, recomeço e a disputa pela casa
Assim como em “Curar e Reparar” (2017) ou “Não Sofra Mais” (2023), a edição de 2026 reforça que os títulos e temas da Anozero funcionam, antes de tudo, como lemas. Uma bienal de arte contemporânea não oferece cuidados paliativos, mas, em 2026, um evento desse porte não pode deixar de encarar o mundo - o pranto do mundo e sua paisagem caótica - e perceber ali a possibilidade de um recomeço.
Ao mesmo tempo, a Anozero coloca a casa no seu núcleo mais sensível em um momento estratégico decisivo: a cidade precisa definir se o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, para além de um hotel de luxo, seguirá abrigando uma bienal internacional de arte com identidade consolidada. Nesse sentido, o programa deste ano também fala da sua própria despossessão, o que o torna um manifesto eloquente.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário