Plantar árvores costuma soar como a solução simples para a mudança climática: é algo visível, passa esperança e é fácil de apoiar.
Em campanhas pelo mundo, a promessa é grande - bilhões, até trilhões, de novas árvores capazes de retirar dióxido de carbono da atmosfera e ajudar a arrefecer o planeta.
No papel, as estimativas impressionam. Alguns cálculos apontam que entre 150 e 1.000 milhões de hectares poderiam ser usados, com potencial para capturar entre 130 e 750 gigatoneladas de dióxido de carbono.
Só que existe um porém: nem toda árvore “refresca” a Terra do mesmo jeito. E nem todo lugar reage da mesma forma quando se planta floresta.
Por isso, a pergunta deixou de ser apenas quantas árvores dá para cultivar. Passou a ser onde elas devem ser plantadas.
Olhar para além da contagem de árvores
Durante anos, muitos estudos analisaram o plantio de árvores de maneira limitada, concentrando-se em como as árvores absorvem dióxido de carbono por meio da fotossíntese. Isso é importante, claro. Mas as florestas também alteram a forma como o solo interage com a luz do sol, a água e o ar.
Um estudo recente adotou uma perspetiva mais abrangente. Os cientistas fizeram simulações detalhadas que incluíram tanto o lado químico (captura de carbono) quanto os efeitos físicos das árvores sobre o planeta.
Para isso, compararam três cenários globais diferentes de reflorestamento, recorrendo a um modelo completo do sistema terrestre que integra atmosfera, oceanos e superfície continental.
O trabalho foi liderado por Robert Jnglin Wills, professor de dinâmica do clima na ETH Zurich. Para garantir que os resultados não fossem apenas consequência de padrões meteorológicos aleatórios, a equipa executou o modelo cinco vezes num supercomputador.
As simulações levaram quatro meses e geraram cerca de 300 terabytes de dados.
Mesmo arrefecimento, menos terra
Os resultados contrariaram uma suposição comum. Dois dos cenários produziram praticamente o mesmo efeito de arrefecimento, apesar de um deles exigir 450 milhões de hectares a mais do que o outro.
Esse excedente de área é aproximadamente equivalente ao tamanho somado de todos os países da União Europeia.
“Fica claro que conseguimos o mesmo efeito de arrefecimento com significativamente menos terra, o que mostra que onde plantamos é mais importante do que quanto plantamos”, observou Nora Fahrenbach, autora principal do estudo.
A explicação está na geografia: árvores em regiões diferentes comportam-se de formas diferentes. Em alguns locais, elas arrefecem o planeta por mais de um mecanismo. Em outros, podem acabar por aquecê-lo.
Por que o local muda tudo
As regiões tropicais destacam-se. Áreas como a bacia Amazónica e partes da África Ocidental e do Sudeste africano apresentam o efeito de arrefecimento mais forte.
Nesses locais, as árvores capturam carbono com eficiência e também libertam água para a atmosfera por evapotranspiração - um processo que ajuda a arrefecer o ambiente ao redor.
Em zonas do Sudeste Asiático, observam-se tendências semelhantes, embora com intensidade um pouco menor.
Já nas latitudes altas do Norte, o quadro é outro. Lugares como a Sibéria, o Canadá, o Alasca e grandes áreas da América do Norte passam meses cobertos por neve.
A neve reflete muito bem a luz solar. Quando copas escuras substituem essa superfície clara, aumenta-se a absorção de calor.
Esse fenómeno é conhecido como efeito de albedo. Nesses contextos, o aquecimento associado ao escurecimento da superfície pode anular - ou até superar - o arrefecimento obtido com a captura de carbono.
“Ao evitar o reflorestamento nas regiões do Norte e concentrar esforços nos trópicos, o reflorestamento torna-se uma ferramenta muito mais eficiente para a proteção do clima”, explicou Fahrenbach.
Ações locais com efeitos globais
Plantar árvores num lugar não produz impactos apenas ali. Segundo o estudo, novas florestas podem alterar a circulação atmosférica e oceânica.
Na prática, isso significa que mudanças numa região conseguem influenciar temperatura e precipitação a milhares de quilómetros de distância.
Esses efeitos em cadeia variaram entre os três cenários. Dependendo não só do plantio local, mas também de onde as árvores foram adicionadas no resto do mundo, algumas regiões aqueceram enquanto outras arrefeceram.
Isso torna o reflorestamento mais complexo do que parece. Não se trata apenas de “adicionar árvores”, e sim de como essas árvores interagem com todo o sistema climático.
Limitações do estudo
A análise considerou apenas efeitos climáticos. Não avaliou impactos sobre biodiversidade, ecossistemas ou comunidades locais.
Além disso, a pesquisa baseou-se num único modelo climático - embora os resultados sejam coerentes com dados existentes e com outros trabalhos científicos.
Um ponto central sobressai: mesmo o reflorestamento em larga escala tem limites. No melhor cenário, o plantio global de árvores poderia reduzir a temperatura média em cerca de 0,25 grau até 2100.
Isso ajuda, mas não resolve sozinho.
“Não há como evitar uma redução drástica e rápida das emissões de combustíveis fósseis”, disse Fahrenbach.
Repensar o plantio global de árvores
O estudo também expõe uma lacuna na forma como o reflorestamento é conduzido no mundo. Não existe um sistema global que coordene onde as árvores deveriam ser plantadas.
Os esforços internacionais atuais tendem a tratar as florestas sobretudo como armazenamento de carbono, deixando em segundo plano os seus efeitos físicos no clima.
“Eu também gosto de árvores, mas, quando buscamos o reflorestamento, ele precisa ser feito de forma sistemática, científica e com uma perspetiva global”, afirmou Fahrenbach.
Ela defende o que chama de reflorestamento inteligente para o clima: plantar árvores onde elas realmente contribuem para arrefecer o planeta e evitar monoculturas vulneráveis a doenças e a incêndios.
Um caminho diferente daqui para a frente
Plantar árvores continua a ser relevante. Ainda é uma das poucas ferramentas capazes de remover dióxido de carbono da atmosfera em grande escala. Mas esta pesquisa deixa um ponto claro: mais árvores, por si só, não vão resolver o problema.
O impacto real vem de colocar as árvores certas nos lugares certos, ao mesmo tempo em que se reduzem as emissões de combustíveis fósseis.
Não é tão simples quanto preencher áreas “vazias” com florestas. É preciso compreender o sistema que se tenta corrigir.
O estudo completo foi publicado na revista Communications Earth & Environment.
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