A relação entre mudança climática e alimentação costuma ser explicada por secas, calor e eventos extremos. Só que existe outra influência, bem menos visível, atuando em paralelo.
Medidas criadas para reduzir emissões podem se espalhar por toda a cadeia alimentar, elevando custos e restringindo o uso da terra de um jeito que torna a comida mais cara.
Ao mesmo tempo, essas políticas também melhoram a qualidade do ar - e essa mudança pode favorecer as lavouras de forma discreta.
Uma pesquisa recente indica que, quando a poluição diminui, as plantas sofrem menos danos e entregam mais produção. Esse ganho compensa parte da pressão extra e reduz o risco de fome para milhões de pessoas no mundo.
A troca oculta no sistema alimentar
Em seis modelos globais de agricultura e comércio, um resultado apareceu repetidamente: os custos dos alimentos aumentaram junto com os esforços para limitar o aquecimento a 2.7 °F (1.5 °C).
Ao comparar esses resultados com as mudanças na poluição do ar, pesquisadores do Instituto Nacional de Estudos Ambientais (NIES) mostraram que um ar mais limpo eleva diretamente a produtividade das culturas e amplia a oferta de alimentos.
Esses ganhos não apagam totalmente o aumento do risco de fome causado por custos maiores de produção, mas reduzem o impacto.
Esse abatimento parcial deixa uma diferença mensurável entre custos induzidos por políticas e benefícios ambientais - uma diferença que precisa ser avaliada com mais cuidado.
Quando os custos começam a subir
O grupo partiu de um futuro “intermediário”, no qual o aumento de renda e a expansão da oferta de alimentos fariam a fome global cair até 2050.
Nesse cenário de referência, os modelos estimaram cerca de 390 milhões de pessoas a menos em risco, ainda com aproximadamente 330 milhões permanecendo vulneráveis.
Grande parte da melhora veio do avanço da renda, permitindo que famílias comprassem mais alimentos mesmo com preços teimosamente elevados.
Ainda assim, o progresso estaria longe de eliminar a fome, mantendo o sistema sensível a qualquer pressão adicional.
Quando os modelos passaram a incluir políticas climáticas para limitar o aquecimento a 2.7 °F (1.5 °C), conforme o Acordo de Paris, essas novas pressões apareceram rapidamente.
Pressão sobre a terra amplia o risco de fome
Taxas sobre emissões encareceram insumos agrícolas, enquanto a terra passou a sofrer mais disputa com culturas energéticas e com o plantio de árvores.
Somadas, essas mudanças elevaram os custos de produção e comprimiram a oferta de alimentos.
Pesquisas anteriores já alertavam que esse tipo de pressão sobre a terra pode aumentar preços e ampliar o risco de fome, e o novo estudo confirma o padrão.
Até 2050, os modelos apontaram cerca de 56 milhões de pessoas adicionais em risco em comparação com o cenário de referência.
Ar mais limpo ajuda as lavouras
Uma matriz energética mais limpa e menos emissões de escapamentos e chaminés também reduziram gases que contribuem para formar ozônio perto do solo sob a luz do sol.
Com menos ozônio atingindo as folhas, houve menos dano foliar, e as plantas conseguiram preservar mais do crescimento que produziram.
Esses ganhos de produtividade, associados ao ar mais limpo, empurraram preços de alimentos para baixo e elevaram a disponibilidade - sobretudo em culturas mais sensíveis ao ozônio.
Até 2050, esse bônus do ar mais limpo compensou cerca de 8.4 milhões de casos de aumento de fome, ou aproximadamente 15 por cento.
Onde o ar mais limpo faz mais diferença
Os benefícios do ar mais limpo não se distribuíram de forma uniforme pelo planeta. Mais da metade da redução do risco de fome apareceu na África Subsaariana e na Índia - regiões que já enfrentam algumas das cargas mais pesadas.
Nesses locais, variações pequenas nos preços dos alimentos podem atingir milhões de domicílios, o que aumenta a sensibilidade a mudanças de produtividade e de oferta.
O estudo estima que cerca de 56 por cento da melhora relacionada ao ozônio se concentra somente nessas duas regiões.
Esse desenho é relevante porque quem encara as trocas mais duras no sistema alimentar também tende a colher mais benefícios quando a qualidade do ar melhora.
Menos ozônio, trigo mais forte
A Índia se destaca em especial: a queda do ozônio trouxe um impulso expressivo ao trigo, um alimento básico responsável por uma parcela importante das calorias diárias.
Safras mais robustas de trigo aumentaram a disponibilidade de alimentos o suficiente para reduzir o risco de fome, mesmo com os custos gerais de mitigação atuando na direção contrária.
Um efeito semelhante apareceu em outras grandes áreas produtoras de trigo, como a China e partes do restante da Ásia.
Já na África Subsaariana, o ganho por esse caminho foi menor, porque as principais culturas da região responderam com menos força à redução do ozônio.
O que os modelos não conseguem captar
Cada projeção do estudo depende de um conjunto de premissas sobre crescimento económico, controlo da poluição, padrões de tempo e a velocidade de adoção de tecnologias mais limpas.
Para verificar a robustez dos resultados, os pesquisadores rodaram várias versões, alterando condições sociais e ambientais nos modelos.
Mesmo com essas mudanças, o comportamento geral permaneceu: um ar mais limpo aumentou de forma consistente a produtividade agrícola e diminuiu o risco de fome. Ainda assim, o tamanho do benefício variou conforme os níveis futuros de ozônio e os cenários de crescimento.
Isso indica que o efeito do ar mais limpo é plausível, mas que o impacto exato deve ser entendido como uma faixa de possibilidades - não como um número fixo.
Por que o risco de fome continua
Somente a melhoria do ar não foi suficiente para neutralizar os efeitos negativos de políticas climáticas rigorosas. O sistema alimentar continuou lidando com custos mais altos de produção e com maior competição por terra, fatores que seguiram pressionando os preços para cima.
O estudo concluiu, inclusive, que o aquecimento por si só elevou menos o risco de fome do que estratégias de mitigação que não consideravam o efeito do ozônio sobre as culturas.
Mesmo após incorporar os benefícios do ar mais limpo, o caminho de mitigação ainda deixou mais gente em risco do que no cenário de referência.
Essa diferença é difícil de ignorar - e reforça o ponto central da pesquisa: política alimentar e política climática não podem andar separadas se a melhoria do ar e as metas climáticas quiserem dar certo.
Desenhando uma política climática mais inteligente
A lição prática não é desacelerar a ação climática, e sim desenhá-la levando em conta preços de alimentos e pressão sobre a terra. Governos podem aliviar esse aperto ao elevar a produtividade no campo, reduzir o desperdício de comida e proteger áreas agrícolas de disputas pouco criteriosas.
Políticas que reduzam emissões em energia e transportes podem gerar um benefício duplo - cortar carbono e, ao mesmo tempo, diminuir o dano do ozônio que prejudica as lavouras.
Visto por esse ângulo, segurança alimentar deixa de ser um assunto secundário. Ela passa a ser determinante para que a mitigação climática funcione de verdade.
No fim, o estudo reposiciona a política climática como um desafio em três frentes - equilibrar aquecimento, uso da terra e poluição do ar, em vez de olhar apenas para um único balanço de carbono.
Estratégias futuras tendem a funcionar melhor quando tratam o ar mais limpo como um ganho mensurável e o risco de fome como uma restrição central de projeto.
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