Palantir já não se limita a comercializar softwares de vigilância. A empresa norte-americana, cuja avaliação de mercado chega perto de 400 bilhões de dólares, acaba de divulgar um manifesto ideológico em 22 pontos que sintetiza a visão de mundo do seu CEO, Alex Karp. O tom é, no mínimo, inquietante.
Palantir: do software de vigilância ao centro do poder
Criada em 2003 por Peter Thiel e Alex Karp, a Palantir se consolidou como um dos nomes mais influentes - e mais contestados - da tecnologia global. O motivo é simples: suas plataformas conectam bilhões de dados vindos de fontes variadas e são usadas por órgãos como a CIA, o FBI e até a DGSI francesa.
Palantir e a dimensão militar: o projeto Maven
É, porém, no terreno militar que a Palantir mais chama atenção. A companhia aparece como peça central do projeto Maven, um programa do Pentágono voltado a automatizar a análise de imagens captadas por drones e a monitorar deslocamentos de tropas no Irã e no Oriente Médio.
Ela também é acusada de ter fornecido as ferramentas usadas para coordenar expulsões em massa de migrantes durante o governo Trump, por meio da sua colaboração com a agência ICE. É nesse cenário que a empresa decidiu publicar, em 18 de abril, um texto apresentando sua visão de mundo. Prepare-se.
A “dívida moral” do Vale do Silício
“A questão não é se armas de IA serão construídas, mas quem as construirá e com qual propósito”, afirma a Palantir, ao sustentar que “uma nova era de dissuasão baseada em IA está prestes a começar”, como substituta da arma nuclear.
Ao falar de geopolítica, a empresa defende que “o desarmamento da Alemanha no pós-guerra foi uma correção excessiva cujo custo a Europa paga caro hoje”, e que um “compromisso altamente teatral com o pacifismo japonês” poderia “ameaçar o equilíbrio de poderes na Ásia”. Em outras palavras: as potências ocidentais deveriam se rearmar - e rápido.
Mas não para por aí. A Palantir, que diz que o Vale do Silício “tem uma dívida moral com o país que tornou seu crescimento possível”, parte para um ataque direto ao relativismo cultural. “Todas as culturas agora são iguais. Críticas e juízos de valor são proibidos”. Em seguida, dispara: “Algumas culturas e subculturas produziram maravilhas. Outras se mostraram medíocres, ou até regressivas e nocivas”.
O manifesto termina com uma crítica frontal à “tentação vazia de um pluralismo vazio”, acusada de diluir qualquer identidade nacional coerente.
Nossa análise
Esse texto está longe de ser inocente. Ao defender publicamente o rearmamento tecnológico do Ocidente, a militarização da IA e a hierarquização entre culturas, a empresa faz, na prática, uma defesa que favorece diretamente a expansão do seu próprio mercado.
Vale lembrar que o CEO Alex Karp se apresenta como um progressista “anti-woke”, enquanto Peter Thiel foi um dos primeiros e mais influentes apoiadores de Donald Trump dentro do Vale do Silício. Essa proximidade ideológica dá um peso particular ao manifesto, num momento em que parlamentares democratas nos EUA cobram esclarecimentos sobre o uso das ferramentas da Palantir nas operações de expulsão em massa que estão em andamento.
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