A mais de 24 bilhões de quilômetros da Terra, a Voyager 1 está chegando ao limite. Para tentar preservar uma das duas únicas máquinas humanas que hoje cruzam o espaço interestelar, engenheiros da NASA estão recorrendo às últimas alternativas.
Às vezes passa despercebido, mas duas sondas lançadas em 1977 continuam a seguir viagem para além do Sistema Solar. A primeira delas, a Voyager 1, navega agora pelo vazio gelado do meio interestelar, a mais de 24 bilhões de quilômetros do nosso planeta. Nessa distância, um simples sinal de rádio leva cerca de 23 horas para chegar até nós. Não surpreende, portanto, que após 49 anos de operação a sonda comece a “perder o fôlego”: a energia disponível diminui dia após dia.
Energia da Voyager 1: plutônio e perda de 4 watts por ano
Para se manter ativa, a Voyager 1 não depende de painéis solares nem de baterias recarregáveis. A eletricidade vem de um gerador termoelétrico de radioisótopos, que transforma o calor produzido pela desintegração do plutônio em energia elétrica. O problema é que esse combustível nuclear está se esgotando, e a sonda perde cerca de 4 watts por ano.
Com uma margem de manobra cada vez menor, a NASA trava uma corrida contra o tempo para adiar o apagão inevitável do equipamento, na esperança de manter ao menos um instrumento funcionando para além da década de 2030.
Um sacrifício necessário para ganhar tempo
Diante desse cenário, os engenheiros do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) tomaram uma decisão difícil: em 17 de abril, enviaram o comando para desligar um dos últimos instrumentos ainda ativos na Voyager 1, o LECP (Partículas Carregadas de Baixa Energia). Essa tecnologia, que operou quase sem interrupções desde o lançamento, era usada para medir partículas carregadas de baixa energia, como elétrons e íons.
O que o LECP ajudou a revelar no espaço interestelar
Com esses dados, pesquisadores conseguiram mapear a estrutura do espaço além da influência do Sol, identificando frentes de pressão e variações na densidade de partículas que eram totalmente desconhecidas até então.
E esta não é a primeira vez que a sonda precisa abrir mão de um instrumento importante. No início, cada uma das duas Voyager levava dez instrumentos científicos. Ao longo das décadas, para economizar cada watt precioso e evitar que as linhas de combustível congelassem, a NASA foi desligando os sistemas, um a um. Com a desativação do LECP, a Voyager 1 passa a contar com apenas dois instrumentos operacionais: um dedicado a “ouvir” as ondas de plasma e outro voltado à medição de campos magnéticos.
Revolução científica
Vale lembrar que as sondas Voyager são os únicos objetos construídos pela humanidade a terem ultrapassado a heliopausa, a fronteira que marca o limite da bolha magnética criada pelo nosso Sol. Em 2012, a Voyager 1 se tornou a primeira espaçonave a entrar no meio interestelar, seguida por sua gêmea Voyager 2 em 2018. Antes disso, as duas revolucionaram o que sabíamos sobre o Sistema Solar ao revelar vulcões ativos na lua Io, de Júpiter, ao permitir um estudo detalhado dos anéis de Saturno e ao explorar a lua Titã.
Por que cada transmissão da Voyager 1 vale tanto
Hoje, cada pacote de dados recebido é valiosíssimo, já que não existe nenhuma outra missão a caminho para investigar essa região distante da galáxia. Se os engenheiros conseguirem estabilizar o consumo elétrico com um plano ousado chamado Big Bang, previsto para o verão de 2026, a Voyager 1 ainda poderá se comunicar por mais alguns anos - um feito monumental para uma sonda originalmente projetada para uma missão de apenas cinco anos.
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