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A construção humana da Argentina no Qatar 2022 e “O método Scaloni”, segundo Fabián Jalife

Jogadores da Argentina comemoram vitória com a taça da Copa do Mundo em estádio iluminado.

Quando a Argentina ergueu a taça no Qatar em 2022, muita gente apontou o brilho de Messi ou o drama decidido nos pênaltis. Só que, na leitura do psicólogo social Fabián Jalife, o que se viu ali foi, antes de qualquer coisa, uma construção humana extraordinária - com lições que ultrapassam o futebol e chegam a qualquer grupo que queira funcionar melhor.

A hipótese que virou série documental

Jalife assina “O método Scaloni”, uma série documental em três episódios que costura falas de Lionel Scaloni, da comissão técnica e de atletas como Messi, Di María, Emiliano Martínez e Leandro Paredes. A ideia surgiu durante um processo de coaching com o diretor-geral de uma grande empresa, que procurava referências concretas de equipes de alto desempenho. A seleção argentina entrou como objeto de análise - e o que era para ser a busca de uma “fórmula” acabou expondo algo bem mais essencial.

Na visão de Jalife, quando um coletivo sustenta performances fora da curva por vários anos seguidos, dificilmente isso é mero acaso. Ao investigar, ele e sua equipe identificaram um conjunto de princípios, valores e comportamentos que se mantêm ao longo do tempo e, pouco a pouco, viram cultura. Não se trata de um manual engessado, e sim de um jeito de estar no mundo.

  • Confiança como base: se ele tivesse de escolher uma palavra para sintetizar o método, seria essa - tudo começa ao construir confiança entre pessoas.
  • Adaptabilidade acima do plano: Scaloni abriu mão de uma ideia na qual acreditava quando percebeu que a realidade indicava outro caminho - algo que poucos líderes conseguem sustentar.
  • Desempenho como resultado: primeiro ele consolida um ambiente emocionalmente saudável; o rendimento vem depois, e não o inverso.
  • Presença no momento: o trabalho do treinador é evitar que o elenco fique aprisionado no trauma do passado ou na ansiedade do futuro.
  • O grupo acima das individualidades: mesmo com o placar encaminhado, ele colocou reservas em campo na semifinal para que todos participassem da conquista.

A cena de Montiel que resume tudo

Na final contra a França, Gonzalo Montiel fez uma mão que virou o pênalti do empate francês. Ele ficou arrasado, certo de que havia colocado o título de um país inteiro a perder. Pelo roteiro mais comum do futebol, seria o momento de “sumir” com o jogador. Scaloni fez o contrário: reduziu o peso dramático do episódio e soltou uma pergunta que, para Jalife, expõe a essência da filosofia do técnico. Não ordenou que ele batesse o pênalti. Perguntou se ele estava para bater. Montiel respondeu que sim. Scaloni bancou a decisão. O restante todo mundo conhece.

Para Jalife, essa passagem é um exemplo claro do que a psicologia organizacional chama de segurança psicológica: a convicção de que você pode falhar e não será descartado por isso. Quando alguém percebe que o líder quer, de verdade, que ela evolua, a reação muda por completo. Ao falar de Scaloni, os jogadores não costumam destacar esquemas; eles descrevem, sobretudo, como ele os fez se sentir.

A masculinidade que chorou na frente de todos

Um ponto que mais chamou a atenção de Jalife durante a pesquisa foi a sensibilidade de Scaloni. O psicólogo cresceu acompanhando Menotti, Bilardo, Basile. A figura tradicional do comando no futebol vinha associada à dureza, ao embate, à épica do macho que impõe autoridade pela força. Scaloni aparece como o oposto desse estereótipo: se emociona, chora, demonstra sentimentos sem disfarces.

O que Messi e Scaloni ensinaram sobre o sonho coletivo

Scaloni conseguiu tirar Messi do pedestal sem diminuir a relevância dele.

Um dos desafios centrais era fazer Messi voltar a ser companheiro, sem apagar o ícone. Scaloni entendeu que precisava aliviar o peso do herói condenado a salvar todo mundo. De Paul e outros atletas mais jovens também se movimentavam para ajudar Messi a sair desse lugar. O desfecho foi surpreendente: o grupo passou a assumir o sonho de Messi como se fosse um sonho próprio.

Nas imagens do instante seguinte ao pênalti de Montiel, muitos jogadores correm primeiro para o ponto onde a taça se concretiza - e, logo depois, voltam na direção de Messi. O recado é inequívoco: o sonho de um virou o sonho de todos. Para Jalife, essa é a mudança mais potente que Scaloni provocou, e ela não cabe em nenhum manual tático.

Para o psicólogo, essa virada cultural pesa tanto quanto qualquer troféu. É um jeito diferente de liderar: proximidade emocional com disciplina, autoridade que nasce do vínculo, não do medo. Ele ressalta que líderes muito afetivos tendem a cobrar pouco, enquanto líderes muito exigentes costumam manter distância emocional. Scaloni combina os dois lados, e isso é raro.

A vantagem adaptativa que a Argentina exibiu no mundo

Jalife usa a expressão “vantagem adaptativa” para nomear uma marca decisiva daquela seleção. O que separa equipes realmente grandes não é a beleza dos planos que montam, e sim a habilidade de se ajustar quando esses planos quebram. Contra a Holanda, contra a França e em tantos outros momentos, a Argentina levou impactos emocionais enormes e voltou para o jogo como se nada tivesse acontecido.

Isso não é talento inato. É algo cultivado diariamente com um trabalho intencional de presença no momento. O próprio Scaloni reconhece que começou o ciclo acreditando num modelo vertical, como via na Europa, e mudou ao enxergar o material humano que tinha. Com isso, derrubou dois dogmas de uma só vez: o de que uma equipe não deve ser construída ao redor de um jogador e o de que apenas times verticais vencem. Ele retornou ao que chamou de “a nossa maneira”. Pouquíssimos líderes, em qualquer área, conseguem abandonar uma certeza quando os fatos mostram outra direção.

O que tudo isso tem a ver com qualquer equipe fora do futebol

Jalife iniciou o projeto procurando segredos de tática e métodos de treino. No fim, chegou a outra conclusão: o que está no centro de toda conquista é sempre a pessoa. O técnico, o líder - quem faz nascer ou matar o ambiente em que os demais atuam. Quando as pessoas se sentem valorizadas, acolhidas e respeitadas, liberam uma energia que, caso contrário, fica represada pelo medo, pela ansiedade ou pela pressão.

A frase com que Jalife traduz o método se aplica a equipes, empresas e projetos: potencializar as pessoas para fortalecer o grupo e, a partir daí, construir desempenho, mas com humildade. Scaloni não posa de dono da verdade. Ele ouve, admite a possibilidade de errar e aceita mudar. Para o psicólogo, essa mistura de convicção com abertura para aprender é o núcleo mais profundo do que a Argentina construiu.

Esse tipo de leitura sobre liderança e comportamento humano rende muito além do futebol. Compartilhe com alguém que comanda uma equipe - ou com quem está tentando entender como os melhores grupos funcionam de dentro para fora.

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