Para quem é fã da marca, a ideia parece quase um sacrilégio: a Jeep parar de vender o Wrangler na Europa. Afinal, ele é o ícone da Jeep - o modelo que melhor traduz o espírito da marca, o herdeiro direto do Willys original e o grande símbolo da capacidade fora de estrada. Seria como a Porsche abrir mão do 911, a Mazda do MX-5 ou a Ford do Mustang.
Ainda assim, é exatamente esse o caminho que será seguido. O Wrangler se despede do mercado europeu - «culpem» as normas de segurança e emissões - e, no lugar dele, a Jeep colocará uma alternativa… 100% elétrica. Uma escolha ao mesmo tempo ousada e polêmica.
Recon assume o lugar do ícone
Quem entra em cena é o novo Jeep Recon, o primeiro SUV elétrico “trail-rated” certificado pela marca, com lançamento previsto para o último trimestre do ano. Diferentemente do Wrangler, ele não usa um chassi tradicional de longarinas e travessas: a base é a plataforma STLA Large, da Stellantis - a mesma arquitetura que, por exemplo, deve servir ao sucessor do Alfa Romeo Stelvio.
O sistema elétrico é de 400 V, com bateria de 100 kWh e autonomia estimada de 402 km (ciclo WLTP). São dois motores (um em cada eixo), que somam 478 kW (650 cv) e 840 Nm, entregando ao Recon um desempenho que o Wrangler só poderia sonhar: 3,7s de 0 a 100 km/h.
Só que, quando o foco é encarar trilhas e obstáculos, os números de aceleração importam menos. Por isso, a Jeep equipou o Recon com o hardware e o software necessários para o fora de estrada: diferenciais com bloqueio eletrônico, semi-eixos de grande diâmetro e diversos modos de condução voltados para terrenos difíceis. Há ainda a função Selec-Speed Control, que permite avançar em velocidades muito baixas, assumindo o papel que antes era das reduzidas.
Mesmo com bons argumentos, a aposta segue sendo arriscada. O exemplo recente do Mercedes-Benz Classe G elétrico - com uma recepção comercial abaixo do esperado - reforça como eletrificar um ícone não é tarefa simples: o componente emocional pesa.
Wagoneer S sobe a fasquia
Ao lado do Recon, a Jeep colocará o Jeep Wagoneer S, também 100% elétrico e igualmente construído sobre a plataforma STLA Large. Ele já tinha sido apresentado em 2024, mas só agora chega à Europa, ainda este ano. Aqui, as prioridades mudam: o Wagoneer S mira luxo e tecnologia.
Trata-se do Jeep mais aerodinâmico já feito (Cx de 0,294) e também usa dois motores, com 447 kW (600 cv) e 837 Nm. Faz de 0 a 100 km/h em cerca de 3,5s e alcança 200 km/h de velocidade máxima. A bateria de 100 kWh garante cerca de 480 km no ciclo norte-americano (EPA), e na Europa a expectativa é ficar confortavelmente acima dos 500 km.
Quando desembarcar, terá pela frente um segmento em ebulição, historicamente dominado por marcas alemãs, que já se preparam para lançar novas opções neste ano (por exemplo, o BMW iX3), com forte pacote tecnológico.
Compass e Avenger para fazer volumes
Se Recon e Wagoneer S funcionam como movimentos estratégicos, é o Avenger - e agora o novo Compass - que sustenta o dia a dia da Jeep na Europa. O novo Jeep Compass, fabricado em Melfi, Itália, utiliza a plataforma STLA Medium e oferece versões eletrificadas e elétricas. Em Portugal, acaba de ser lançada a configuração híbrida plug-in, com mais de 80 km de autonomia elétrica e preços a partir de 48 mil euros.
Enquanto isso, o Jeep Avenger segue como o modelo mais vendido da marca no continente. Vendido em versões 100% elétricas, mild-hybrid e 4xe com tração integral eletrificada, ele também deve passar por atualização. Protótipos de teste já foram «apanhados», sinalizando que um Avenger renovado pode estrear ainda este ano, embora a Jeep não tenha divulgado detalhes.
Se 2026 tende a ficar mais marcada pela saída do Wrangler do que pela chegada de uma enxurrada de novidades, isso não significa um adeus definitivo. A Jeep já trabalha em uma nova geração, prevista para 2028, abrindo a possibilidade de retorno ao continente europeu.
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