A SpaceX agora trabalha com a meta de chegar ao mercado com uma avaliação superior a 2 000 bilhões de dólares na sua oferta pública inicial (IPO), acima dos 1 250 bilhões estimados em fevereiro. Se o plano se confirmar, será a maior IPO já vista - e pode abrir caminho para que Elon Musk se torne o primeiro indivíduo a ultrapassar 1 000 bilhões de dólares em fortuna.
Dois meses atrás, a SpaceX se fundiu com a xAI, a startup de inteligência artificial de Elon Musk, numa operação que atribuía ao fabricante de foguetes uma avaliação de 1 000 bilhões de dólares - um patamar já fora de escala. Depois disso, as projeções para a estreia em bolsa subiram para 1 500 bilhões e, em seguida, para 1 750 bilhões. Agora, segundo a Bloomberg, o alvo avançou mais uma vez: SpaceX e seus assessores passaram a apresentar a potenciais investidores um objetivo acima de 2 000 bilhões de dólares, quase o valor de mercado atual de Tesla e Meta somadas. Se a SpaceX for listada nesse nível, entraria diretamente no grupo das seis maiores empresas dos Estados Unidos.
A empresa pretende captar até 75 bilhões de dólares na IPO, programada para junho do ano que vem (algumas fontes chegam a apontar o dia 28 de junho, data do aniversário de Elon Musk). O recorde anterior era da Saudi Aramco, que levantou 29 bilhões de dólares em 2019 - aqui, portanto, a captação seria quase três vezes maior. Um detalhe relevante: Elon Musk estaria considerando reservar até 30 % da IPO para investidores pessoas físicas, o triplo do que costuma ser destinado a esse público.
De onde vem a avaliação de 2 000 bilhões: Starlink, Starship e xAI
O que sustentaria um número tão alto? Em primeiro lugar, o Starlink, claro. A constelação de satélites de internet da SpaceX é o principal gerador de caixa do grupo, com receitas em forte expansão e uma posição dominante quase impossível de contestar no mercado de comunicações via satélite. Ainda assim, por mais forte que seja, o Starlink não parece, sozinho, explicar uma avaliação de 2 000 bilhões.
Uma fatia importante desse valor também se apoia em iniciativas que ainda não se provaram em grande escala. O Starship, o megafoguete pensado para levar humanos a Marte, e as ambições de “IA espacial” herdadas da fusão com a xAI continuam embrionárias. No fim, a questão vira o tamanho do prêmio que os investidores aceitarão pagar por promessas - por mais impressionantes que elas sejam.
Elon Musk, primeiro homem a 1 000 bilhões?
Enquanto isso, fazendo as contas: com 42% de participação na SpaceX e uma avaliação de 2 000 bilhões de dólares, Elon Musk teria cerca de 840 bilhões de dólares em ações. A Forbes estima a sua fortuna atual em 839 bilhões de dólares. Somando suas posições na Tesla e em outras empresas, o marco simbólico de 1 000 bilhões de dólares em patrimônio pessoal fica, portanto, ao alcance. Se essa operação se materializar, um único homem passaria a valer mais do que o PIB da Bélgica, dos Países Baixos ou da Suécia - um nível de concentração de riqueza sem paralelo na história da humanidade.
Pontos de atenção antes da IPO da SpaceX
Antes de chegar lá, porém, há incertezas a esclarecer. A primeira é estrutural: a fusão SpaceX-xAI-X levanta um problema porque comprador e vendedor eram a mesma pessoa (Elon Musk). As avaliações usadas nesse acordo não foram confirmadas por nenhum mecanismo independente de mercado. Assim, inflar a xAI para 250 bilhões de dólares pouco antes de uma IPO se torna um expediente conveniente para elevar o total.
Em seguida, há o desconforto crescente com a proximidade do poder político americano. A SpaceX garantiu 6 bilhões de dólares em contratos públicos em cinco anos com a NASA e o Pentágono. Donald Trump Jr. possui ações da SpaceX por meio de um fundo de investimento. E Elon Musk foi um dos principais financiadores da campanha de Donald Trump. Essa mistura de dinheiro público, influência política e enriquecimento pessoal tende a chamar a atenção de autoridades reguladoras.
Por fim, seria arriscado ignorar o “efeito Musk”, expressão cunhada pela consultoria Morningstar. A empresa avaliou 99 eventos que provocaram variações de pelo menos 7 % no preço das ações da Tesla desde 2017. A conclusão: em seis de cada dez casos, a origem estava diretamente ligada ao próprio Elon Musk (declarações, posicionamentos políticos, aparições públicas etc.). E, na maioria das vezes, as oscilações foram para baixo. Uma vez listada, a SpaceX pode virar uma Tesla multiplicada por dez em termos de volatilidade.
Uma aposta em um homem
É aí que mora o ponto central. A IPO da SpaceX tende a ser o acontecimento financeiro mais aguardado de 2026. A empresa tem bases robustas (o Starlink é um êxito comercial indiscutível, e a SpaceX domina o mercado de lançamentos). Mas a avaliação de 2 000 bilhões de dólares depende bastante de especulação sobre o futuro, alimentada pela fé quase religiosa que o mercado deposita em Elon Musk.
Quando o preço de uma companhia desse tamanho fica tão atrelado à personalidade de uma única pessoa - além de tudo, imprevisível - o risco pode ganhar dimensão sistêmica. Quem entrar na história da SpaceX em junho não estará apostando apenas em foguetes e satélites; estará apostando também em Elon Musk, com todos os riscos que isso implica.
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