E se, dentro de casa, o maior problema com telas não fosse o dos filhos? Uma nova pesquisa científica indica que a distração digital dos pais pode enfraquecer o vínculo emocional dos adolescentes - e coloca em xeque várias certezas sobre a dinâmica familiar.
Costuma-se criticar os adolescentes por passarem o dia com os olhos no smartphone. No entanto, um estudo publicado em 18 de junho na revista especializada Frontiers in Psychology propõe uma inversão de perspectiva: o uso de telas pelos adultos também pode ser prejudicial.
Distração digital dos pais: technoference e phubbing
A investigação foi conduzida por pesquisadores dos Estados Unidos, incluindo o psicólogo Don Grant, e nasceu de uma pergunta simples feita por uma menina à mãe: “Mamãe, você gosta do seu telefone mais do que de mim?”. A partir desse caso clínico, o grupo decidiu examinar a “technoference” e o “phubbing” praticados por pais - isto é, quando o adulto ignora o filho para dar atenção a notificações e ao próprio aparelho.
Como a pesquisa mediu a disponibilidade dos pais (DAIS)
Para quantificar o fenômeno, os cientistas reuniram um painel representativo de 600 adolescentes americanos de 12 a 17 anos. Em seguida, criaram uma escala chamada Device Attachment Interference Scale (DAIS), voltada a medir como os jovens percebem a disponibilidade dos pais.
Entre outras tarefas, os participantes precisavam se posicionar diante de afirmações como: “Meu pai/minha mãe me ignora quando está no aparelho” e “Eu me sinto invisível quando quero a atenção dele(a) e ele(a) não larga a tela”.
A proposta era cruzar essas respostas com instrumentos psicológicos padronizados ligados à teoria do apego. Na prática, os autores buscaram verificar se o smartphone favorecia, nos adolescentes, dois tipos de reação defensiva: a ansiedade - um desejo excessivo de ser tranquilizado por medo de rejeição - e a evitação, que é o distanciamento e o fechamento emocional como forma de autoproteção.
Um risco real de insegurança afetiva
Os resultados são diretos: a distração digital não passa sem consequências. Os especialistas observaram uma correlação estatística muito nítida entre a dependência de telas por parte dos adultos e o sofrimento dos filhos. Quanto mais os adolescentes percebem seus pais como “viciados” no smartphone, maiores tendem a ser seus escores de “apego inseguro”.
Em outras palavras, sentir-se deixado de lado diante de uma tela ativa os dois mecanismos de defesa avaliados. Assim, os adolescentes afetados acabam apresentando ao mesmo tempo um perfil “ansioso” e um perfil “evitativo”. De um lado, convivem com o medo persistente de rejeição e passam a buscar atenção de modo desproporcional; de outro, com o tempo, levantam uma barreira emocional e se isolam para não sofrer mais com essa indisponibilidade.
Outro ponto destacado é que o efeito negativo é exatamente o mesmo quando a distração vem do pai ou da mãe. Ainda assim, os autores pedem cautela para não cair em culpa automática e ressaltam uma nuance central: o estudo identifica correlação, não uma causalidade direta.
Embora seja plausível que o smartphone aumente a distância do adulto, a hipótese inversa também é possível: um adolescente que já seja mais ansioso por natureza ou esteja vivendo uma crise identitária pode ficar muito mais atento, sensível e irritado com qualquer pequena distração dos pais.
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