A proposta de proibir redes sociais para menores de 15 anos enfrenta um entrave relevante - e o bloqueio vem de Bruxelas, dentro da Comissão Europeia.
Apresentado como o último grande projeto de lei de impacto social no fim do mandato de Emmanuel Macron, o texto pode acabar perdendo fôlego. A França pretendia colocar em prática, já em setembro, a proibição de acesso às redes sociais por menores de 15 anos, mas a Comissão Europeia tem resistido à iniciativa.
O que a Comissão Europeia contesta na proibição das redes sociais
Na avaliação da Comissão, a lei francesa não é compatível com o direito europeu. O país estaria em desacordo com o Digital Services Act (DSA), a norma digital da União Europeia. Thomas Regnier, porta-voz da Comissão, explicou à AFP:
“Partilhamos plenamente o objetivo das autoridades francesas: os menores devem ser mais bem protegidos online. O parecer da Comissão ajuda a garantir que qualquer medida nacional seja eficaz e conforme com o direito da UE. Temos de reduzir ao mínimo a fragmentação dos sistemas nacionais, que poderia criar insegurança jurídica ou enfraquecer a aplicação da lei.”
A França deve rever o texto à luz do DSA e do papel da ARCOM
A proibição das redes sociais para menores foi desenhada para entrar em vigor já em setembro. Aprovada em primeira leitura pela Assembleia Nacional, ela previa uma restrição única, válida para todas as plataformas, sem diferenciação.
O Senado, porém, alterou o projeto ao introduzir uma distinção importante: duas categorias de plataformas - as consideradas perigosas e as vistas como menos problemáticas. Na prática, caberia à ARCOM emitir um parecer sobre essa classificação, e não a Bruxelas, o que entra em choque com o DSA.
Em termos simples, a lógica do regulamento europeu é que a supervisão seja feita a nível da UE, e não por cada país de forma isolada. O governo já tinha sinalizado que essa nuance criaria dificuldades nessa escala - e o alerta acabou por se confirmar. Agora, deputados e senadores terão de chegar a um meio-termo numa comissão mista paritária, usando o parecer de Bruxelas como base para reescrever o texto.
Proteção de menores, tempo de tela e soberania: o pano de fundo do debate
A proteção de menores frente às redes sociais e ao tempo de tela é um desafio tão grande quanto necessário. Há algumas semanas, o ministro da Educação, Édouard Geffray, afirmou que os smartphones seriam proibidos nos liceus já a partir do regresso às aulas - uma medida contundente para tentar proteger os mais jovens de abusos associados às redes sociais.
Para o governo, enfrentar essas plataformas não é uma disputa menor: trata-se de uma questão simultaneamente social e de soberania. Alguns meses atrás, Emmanuel Macron declarou:
“O cérebro das nossas crianças e dos nossos adolescentes não está à venda, as suas emoções não estão à venda nem para serem manipuladas, nem por plataformas americanas nem por algoritmos chineses.”
Esse revés na esfera europeia está longe de encerrar a discussão. Um número crescente de países da UE quer criar leis sobre a proibição das redes sociais, o que pode pressionar a Comissão a flexibilizar as suas regras. Do lado francês, a consequência imediata é clara: será preciso repensar a lei.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário