O Nancy Grace Roman Space Telescope finalmente está pronto para sair do hangar: no outono de 2026, ele será enviado ao espaço para produzir o mapa tridimensional mais detalhado já feito da estrutura em grande escala do nosso cosmos.
Na história da astronomia, existem marcos que dividem tudo em “antes” e “depois” - aqueles momentos em que fica claro que a área está prestes a mudar profundamente. Foi assim em 1990, quando o telescópio Hubble apontou seus sensores a partir da órbita baixa da Terra e, pela primeira vez, enxergámos o Universo sem a interferência da atmosfera. Em 2022, o cenário se repetiu quando chegaram as primeiras imagens do James Webb e, em poucos segundos, anos de dúvidas e atrasos perderam o peso.
Desta vez, a repetição não tem nada de negativo: há dois dias, em 21 de abril, a NASA informou que concluiu a montagem do Nancy Grace Roman Space Telescope. O “Roman”, para os mais íntimos, agora ocupa em toda a sua imponência a maior sala do Goddard Space Flight Center, em Greenbelt, no estado de Maryland.
Concebido no começo dos anos 2010, o projeto começou a ser construído em 2018 e, ainda assim, sobreviveu a cortes orçamentários e ao primeiro mandato de Donald Trump, quando quase foi encerrado. O nome homenageia Nancy Grace Roman, a primeira mulher a ocupar um cargo de liderança na NASA nas décadas de 1960 e 1970 - ela defendia com convicção o papel dos telescópios espaciais para compreendermos a vastidão do cosmos. O lançamento está previsto para setembro de 2026, a partir do Centro Espacial Kennedy, quando um Falcon Heavy, da SpaceX, o levará até o ponto de Lagrange L2, juntando-se ao James Webb e ao Euclid.
Roman: o novo olho grande-angular da humanidade para o Universo
Com um espelho primário de 2,4 metros de diâmetro, o Roman vai captar uma quantidade de luz comparável à do Hubble, mas com uma diferença decisiva: seu campo de visão será 100 vezes maior, permitindo registrar áreas do céu a uma velocidade mil vezes superior à do antecessor. Na prática, isso quer dizer que, em apenas um ano de operação, o Roman deve gerar mais dados científicos utilizáveis do que tudo o que o Hubble produziu desde abril de 1990 - além de cobrir regiões do cosmos que o Hubble jamais teria tempo de mapear ao longo de toda a carreira.
Durante a entrevista coletiva de 21 de abril, o administrador da NASA, Jared Isaacman, resumiu a dimensão do salto: “as imagens que ele capturará serão tão grandes que não existe tela larga o suficiente para exibi-las”. Em 35 anos de serviço, o Hubble acumulou um volume enorme de informação, perto de 400 TB. O Roman, porém, entra em outra liga: ele deverá produzir 500 em um único ano. Isaacman também afirmou: “O que o Hubble levaria 2 000 anos para processar, o Roman pode fazer em um ano […]”.
Instrumentos de observação do Nancy Grace Roman Space Telescope
O telescópio levará dois instrumentos científicos. O primeiro é o Wide Field Instrument (WFI), uma câmera ultra grande-angular de 300 megapixels, que opera na luz visível e no infravermelho próximo, combinada a um espectrógrafo sem fenda. O segundo, chamado Coronagraph Instrument (CGI), é um conjunto com máscara óptica para bloquear a luz, acoplado a dois espelhos deformáveis. Com isso, o Roman conseguirá detectar planetas cem milhões de vezes menos brilhantes do que sua estrela, um nível extremo de sensibilidade que deve acelerar a identificação de exoplanetas.
Complementar ao James Webb - que investiga as regiões mais distantes do Universo -, o Roman vai construir um panorama gigantesco por meio de um varrimento contínuo, somando em poucos anos mais objetos celestes do que todos os telescópios espaciais juntos catalogaram desde o início da era espacial. Como disse Dominic Benford, cientista do programa: “Nós vamos observar milhares de supernovas, incluindo algumas das mais distantes já detectadas”.
Dados por dia: 11 Tb não é 11 TB
O jornal Les Echos citou Mark Melton, engenheiro de sistemas do Roman, dizendo que ele enviará “11 terabytes de dados por dia”. O número é gigantesco, mas está superestimado por um fator oito: documentos técnicos da NASA indicam a taxa em terabits, uma unidade oito vezes menor do que o terabyte. 11 Tb por dia (o que essas especificações aparentemente descrevem) equivalem, na realidade, a 1,3 TB, e não 11 TB. E nem havia necessidade de inflar o valor: mesmo assim, trata-se de um volume 500 vezes maior do que o do Hubble e 60 vezes acima do James Webb.
A busca pelos mistérios do cosmos
Julie McEnery, cientista-chefe da missão Roman, definiu a aposta científica do projeto desta forma: “Espero do fundo do coração - e tenho até a certeza - que as descobertas mais empolgantes do Roman serão aquelas que não previmos, que não podíamos prever, mas que vão trazer novas perguntas fundamentais às quais as missões futuras terão de responder”.
O Roman foi concebido para atacar diretamente dois dos maiores pontos cegos da cosmologia moderna: mapear a distribuição da matéria escura para, a partir disso, decifrar a influência da energia escura sobre a expansão do cosmos. São dois componentes teóricos do modelo cosmológico padrão que, somados, representariam 95% do conteúdo do Universo. O problema é que ninguém ainda os detectou de forma direta, mantendo a cosmologia num estado de crise conceitual - algo que o Roman talvez ajude a aliviar.
Agora faltam apenas cinco meses para que o Roman deixe a Flórida e siga para seu ponto de observação. Em teoria, sua missão deve durar cinco anos, com um objetivo operacional que pode chegar a até uma década, dependendo das condições dos sistemas e das decisões da NASA. Ao término, ele será desativado e colocado numa órbita de descarte, conforme os procedimentos de fim de vida de observatórios espaciais. Mas, se entregar o que promete, dez anos podem ser mais do que suficientes para transformar a cosmologia observacional e nos deixar os arquivos científicos mais valiosos da história da astronomia espacial. Nos vemos na decolagem!
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