Um colosso que se estende por três estados dos Estados Unidos - e que, ao longo da história, já despertou três vezes. Hoje, ele parece adormecido em sono profundo; ainda assim, os roncos abafados lembram que, um dia, voltará a mostrar os dentes.
Supervulcão de Yellowstone: o parque que é o próprio vulcão
Sob os gêiseres e as fontes termais borbulhantes do Parque Nacional de Yellowstone, no Wyoming, está escondido um dos sistemas vulcânicos mais potentes do planeta. Na prática, o parque não foi construído sobre um vulcão: ele é o vulcão. Isso porque a região repousa sobre dois enormes reservatórios magmáticos - e o mais profundo desce a quase 50 km abaixo da crosta terrestre.
Trata-se de um supervulcão que, como o termo sugere, não exibe um cone evidente. Em vez disso, há uma depressão colossal conhecida como caldeira, capaz, ao menos em teoria, de produzir uma supererupção cujo volume de material expelido ultrapassaria 1 000 km³.
Por que o termo “supervulcão” incomoda os cientistas
Michael Poland, o cientista responsável pelo Observatório do Vulcão Yellowstone, é cauteloso com a palavra supervulcão. Para ele, o termo pode ser enganoso, pois reduz Yellowstone ao seu potencial destrutivo e deixa de lado um ponto essencial: os derrames de lava são, de longe, as expressões mais frequentes da atividade geológica do sistema.
A discussão é mais semântica do que qualquer outra coisa - mas, deixando o vocabulário de lado por um momento, a pergunta permanece: o que aconteceria se esse monstro, algum dia, saísse da dormência?
O que aconteceria em caso de erupção?
Comecemos pela parte positiva: os cientistas consideram que o magma sob Yellowstone hoje é, em sua maior parte, sólido. Em geologia, entende-se que, para uma erupção ser possível, o reservatório magmático precisa conter pelo menos 35% a 50% de rocha fundida - algo que está longe de ocorrer no momento.
Poland faz a seguinte comparação: “É um pouco como um raio: sim, existe uma chance em um milhão de ser atingido, mas se o céu está limpo acima da sua cabeça, essa probabilidade cai a zero pelos próximos minutos”. Em teoria, todo Yellowstone poderia entrar em fase eruptiva, mas isso não aconteceria antes de muitos milhares - ou até milhões - de anos.
Impactos imediatos: cinzas, gases e fluxos piroclásticos
Quando o sistema enfim acordar, a humanidade enfrentará um evento em escala maior do que qualquer coisa registrada na história escrita. A explosão lançaria colunas gigantescas de cinzas e gases superaquecidos que, ao colapsarem, desencadeariam fluxos piroclásticos: avalanches incandescentes de gases e rochas que avançariam a velocidades impressionantes, entre 200 e 700 km/h.
Esses fluxos varreriam tudo no caminho por centenas de quilômetros, sem que nada conseguisse resistir.
Mesmo uma erupção tão célebre e devastadora quanto a do Vesúvio pareceria pequena em comparação: Montana, Wyoming e Idaho seriam totalmente varridos pelos fluxos. De acordo com os modelos de previsão do observatório do parque, depósitos de cinzas com várias dezenas de metros soterrariam as áreas próximas à caldeira, antes de se espalharem como uma camada de poucos milímetros pela maior parte dos Estados Unidos e do Canadá.
O transporte (rodoviário e aéreo) ficaria paralisado, redes elétricas cairiam em sequência, aquíferos seriam contaminados e as colheitas agrícolas seriam completamente destruídas.
Efeitos globais: o “inverno vulcânico”
Em escala planetária, as quantidades enormes de gases e cinzas lançadas na estratosfera formariam uma espécie de tela ao redor do mundo, dificultando a passagem da luz solar. O resultado seria um período frio e escuro que duraria vários anos, possivelmente uma década: um inverno vulcânico.
A normalização - o tempo necessário para que os aerossóis retornem ao solo - poderia se arrastar por 10 a 20 anos. Cadeias alimentares inteiras seriam desorganizadas, levando a fomes generalizadas, inclusive em países desenvolvidos.
Como resume Poland: “Muita gente morreria, mas isso não erradicaria a humanidade. Nenhuma erupção vulcânica explosiva jamais causou uma extinção em massa na Terra. A gente sobreviveria, mas não seria nada agradável”. Por “nada agradável”, entenda: anos sem verão, safras destruídas em vários continentes, milhões de pessoas levadas pela fome, pandemias em cascata e sociedades inteiras de joelhos.
Isso, claro, se a humanidade ainda estiver aqui para assistir à erupção - o que, por si só, seria um feito notável, considerando tudo o que ela faz para abreviar a própria permanência no seu planeta.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário