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Mars Express revela novas manchas escuras em Utopia Planitia

Pessoa manipulando tablet com imagens de paisagens marcianas e deserto exibidas em monitor largo.

Marte costuma carregar a fama de planeta morto: um deserto seco, sem qualquer atividade. Em grande parte, isso é verdadeiro - mas a impressão engana. Mesmo hoje, algumas forças naturais ainda atuam ali e continuam a alimentar processos geomorfológicos ativos, embora em escala reduzida.

Mars Express e as imagens da HRSC em Utopia Planitia

Em 2003, a ESA (Agência Espacial Europeia) colocou a sonda Mars Express em órbita do nosso vizinho vermelho. O objetivo era mapear o relevo para entender melhor o passado geológico do planeta, analisar a atmosfera e identificar como a água - na forma de gelo ou de minerais hidratados - se distribui no subsolo e na superfície. Foi justamente com ela que, em 2004, se confirmou que havia gelo de água e gelo carbônico no polo sul marciano. Desde então, a partir da missão InSight, também se considera a possibilidade de existir água líquida em Marte, escondida sob a crosta, e talvez até um enorme oceano subterrâneo.

Ainda operacional, a Mars Express leva diversos instrumentos, incluindo a HRSC (High Resolution Stereo Camera), uma câmera estereoscópica de alta resolução. Em novembro de 2024, a HRSC registrou novas imagens de Utopia Planitia, uma planície vasta no hemisfério norte que se estende por cerca de 3.300 quilômetros. Essa área já havia sido fotografada na década de 1970 pelas sondas Viking, mas a comparação entre as duas séries de imagens revelou diferenças marcantes na morfologia da superfície. Se Marte é tão pouco ativo do ponto de vista geológico, como justificar o surgimento de novas faixas escuras que se espalham por centenas de quilômetros?

Utopia Planitia: um “canteiro de obras” marciano ainda em andamento?

Na sua juventude, Marte passou por uma fase de vulcanismo extremamente intenso. A região de Tharsis, por si só, reúne os maiores вулcões-escudo do Sistema Solar, entre eles o Olympus Mons, que chega a quase 22 quilômetros de altitude - quase três vezes o Monte Everest. São estruturas geológicas gigantescas que, por bilhões de anos, expeliram quantidades inimagináveis de lava e de materiais piroclásticos, incluindo cinzas ricas em minerais ferromagnesianos como a olivina e o piroxênio.

Com o tempo, esses vulcões foram se apagando, já que Marte perdeu calor interno demais para sustentar tamanha atividade magmática. Ainda assim, os depósitos vulcânicos dessa época permaneceram em camadas, com quilômetros de espessura, formando parte da crosta superior observada hoje em Utopia Planitia.

Atualmente, esses depósitos lembram imensos “mares” de areia negra, cuja tonalidade escura contrasta fortemente com a poeira avermelhada, semelhante a ferrugem, que recobre o restante do planeta. De acordo com as imagens mais recentes da Mars Express, essas manchas escuras se expandiram de forma significativa ao longo de 50 anos em relação aos primeiros registros da missão Viking. Se considerássemos apenas uma explicação estritamente geológica, essa mudança não faria sentido, pois Marte não apresenta mais atividade tectônica; portanto, a causa precisa estar em outro lugar.

Duas hipóteses foram propostas: ou as cinzas vulcânicas foram redistribuídas por tempestades que varrem periodicamente o planeta, ou o material claro de origem sedimentar que as recobria foi sendo erodido e removido, expondo, por contraste, mais substrato escuro abaixo. Em ambos os cenários, o vento seria o responsável pela migração das areias basálticas, um dos últimos agentes realmente capazes de alterar a aparência atual da superfície marciana.

Vento marciano e poeira basáltica: por que a paisagem muda

Poeira sendo empurrada pelo vento na superfície de Marte - por que isso importa? À primeira vista, parece algo superficial e pouco relevante, mas é preciso enxergar o contexto. Há milhões de anos, Marte ficou sem seus principais agentes geológicos: o vulcanismo cessou e não existe hidrologia de superfície ativa. Tudo desapareceu, exceto a atmosfera, que ainda existe - embora seja extremamente rarefeita.

A pressão atmosférica marciana é muito baixa, chegando a apenas 0,6% da pressão na Terra, e o ar é pouco denso para que a energia eólica alcance força suficiente para rivalizar com as forças que esculpiram o planeta no passado.

Esse raciocínio é convincente, mas deixa de lado um fator decisivo: os depósitos vulcânicos envolvidos são formados por partículas finíssimas, quase como talco. Por serem tão leves, nada as prende ao solo; elas ficam soltas na superfície, e qualquer corrente de ar pode levantá-las, suspendendo-as na atmosfera, onde podem permanecer por meses antes de voltar a cair.

Tempestade após tempestade, esse mecanismo se repetiu e, ao longo de algumas décadas, alterou a aparência e a distribuição das poeiras na superfície. É isso que explica a divergência entre as imagens das sondas Viking e as da Mars Express: por mais fraco que seja, o vento marciano basta para mostrar que o planeta não é totalmente inerte. Em escalas de tempo muito curtas - pouco mais de meio século - a geomorfologia de Marte pode mudar o bastante para que uma sonda consiga detectar. Assim, embora Marte seja pouco ativo em termos geológicos, na escala atmosférica ele continua bastante dinâmico.

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