A central nuclear de Fessenheim, desligada em 2020 depois de 42 anos em operação, inicia agora uma nova fase: o desmantelamento. Trata-se de uma obra de escala gigantesca, prevista para avançar até 2048, e que vem acompanhada de um projeto polêmico de reciclagem de metais com traços de radioatividade.
Por que a central nuclear de Fessenheim foi encerrada
Em 2015, a lei de transição energética definiu o destino da central nuclear de Fessenheim. A usina havia entrado em funcionamento em 1977, com dois reatores de água pressurizada de 900 MW - os primeiros desse tipo em território francês - e, quando foi fechada, era a unidade mais antiga do parque nuclear do país. A parada definitiva dos reatores ocorreu em 2020.
Um desmantelamento longo e tecnicamente delicado
A etapa que começa agora é a mais extensa e, sobretudo, a mais sensível de todo o processo: desmontar e descontaminar. Segundo a EDF, a operação deverá gerar cerca de 380.000 toneladas de resíduos, dos quais 94% são classificados como convencionais (como concreto e metais). Ainda assim, é a fração radioativa que concentra as maiores preocupações: desmontar reatores, descontaminar estruturas afetadas e administrar efluentes líquidos e gasosos em um local às margens do Rio Reno, a 1,5 quilômetro da fronteira com a Alemanha, exige um planejamento rigoroso.
Nesse cenário, a EDF estimava uma fase preparatória de cinco anos antes mesmo de iniciar o desmantelamento propriamente dito, e avaliava que o conjunto do trabalho levaria aproximadamente vinte anos. Agora, um decreto publicado no Diário Oficial confirma o começo dessa intervenção de grande porte e estabelece, com precisão, como ela deve ser conduzida.
Um plano em quatro etapas
O decreto não deixa margem: a intenção é que todo o complexo seja removido. As únicas exceções possíveis envolvem certas instalações convencionais e prédios administrativos, que poderão permanecer caso façam sentido para a reconversão do local.
A execução está organizada em quatro etapas. A primeira é o desmantelamento eletromecânico - a parte mais delicada, pois envolve retirar, componente por componente, os elementos dos reatores e também todos os sistemas associados ao tratamento de efluentes radioativos. Depois, vem o saneamento (descontaminação) das estruturas e do solo. Na sequência, ocorre a demolição dos edifícios, “até uma profundidade de pelo menos um metro” abaixo do nível atual do terreno. Por fim, é prevista a reabilitação integral da área. Algumas dessas fases poderão ocorrer simultaneamente.
No tema da segurança, o decreto impõe regras estritas para as liberações: os efluentes gasosos deverão ser tratados e controlados antes de qualquer descarte para o exterior, e o esvaziamento das piscinas dos prédios do reator e do combustível - operações consideradas particularmente sensíveis - será submetido a um controle específico. O texto fixa o término do desmantelamento em 30 de junho de 2048.
O ponto de discórdia
Ao mesmo tempo, o desmantelamento é acompanhado por uma iniciativa paralela que reacende tensões na região: a implantação de um tecnocentro, uma fábrica voltada a reciclar metais muito fracamente radioativos provenientes do desmantelamento de instalações nucleares. Estimado em 450 milhões de euros, esse projeto ocuparia 15 hectares e está previsto para 2031, com até 300 pessoas mobilizadas durante a construção.
A proposta é fundir peças metálicas contaminadas para transformá-las em lingotes que poderiam ser reutilizados na indústria convencional. Seria algo inédito na França, embora países europeus como Suécia, Reino Unido e Espanha já adotem esse tipo de reciclagem. A EDF, que em julho de 2025 reafirmou a intenção de seguir com o projeto apesar de um debate público intenso, sustenta que a radioatividade presente nos lingotes resultantes seria mínima.
Já os críticos acusam uma “disseminação organizada da radioatividade” e temem que metais radioativos acabem, sem rastreabilidade, incorporados a objetos do cotidiano. Outros destacam a localização: o terreno estaria 8,50 metros abaixo do nível do Grande Canal da Alsácia, separado dele apenas por um dique, além de situar-se em uma zona sísmica.
Vale lembrar que o projeto ainda precisa obter uma exceção ao código de saúde pública, além de uma autorização ambiental.
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