Uma tempestade de granizo é um dos riscos mais implacáveis para a agricultura. Ela chega quase sem aviso, dura poucos minutos e pode retalhar uma lavoura inteira de trigo ou amassar toda a fruta de uma árvore - enquanto o talhão vizinho permanece intacto.
Em questão de instantes, produtores podem perder o trabalho de uma estação antes mesmo de conseguirem reagir. E, ao contrário de uma seca ou de uma onda de calor, depois que o granizo começa a cair praticamente não há o que fazer.
Um estudo recente acrescenta mais um complicador: o mapa do risco de granizo está mudando.
Com o aquecimento do planeta, projeta-se que as condições atmosféricas que favorecem granizo destrutivo se afastem de áreas mais quentes e avancem para regiões mais frias - incluindo o sudeste da Austrália, a Nova Zelândia, o norte da América do Norte e partes da Europa.
Dentro dessas áreas, o aumento do risco não aparece principalmente no verão, como muita gente associa às tempestades severas, mas sim no inverno e nas estações de transição - justamente quando muitas culturas estão no solo.
A pesquisa foi liderada pelo Dr. Tim Raupach, do UNSW Institute of Climate Risk and Response.
Por que o granizo se comporta desse jeito
As pedras de granizo se formam quando correntes ascendentes muito fortes em tempestades elevam gotículas de água para camadas da atmosfera com temperaturas abaixo de zero. Ali, elas vão acumulando sucessivas camadas de gelo até ficarem pesadas demais para continuar suspensas.
Quanto mais intensa é a corrente ascendente, maior pode ficar a pedra de granizo antes de cair.
Projetar o granizo no futuro é notoriamente difícil. Diferentemente de temperatura ou chuva, o granizo não é medido de forma consistente em grandes áreas: as tempestades são rápidas, localizadas e complicadas de observar de maneira sistemática.
Em vez de simular diretamente as pedras de granizo, Raupach e seus colegas recorreram a três proxies diferentes, que capturam as condições atmosféricas mais associadas à formação de granizo.
Essas três abordagens nem sempre apontaram na mesma direção, especialmente nos trópicos - o que dá uma ideia de como as projeções ainda carregam incertezas. Ainda assim, de forma geral, elas convergiram para um deslocamento em direção aos polos.
“Em cenários de modelagem com 2°C e 3°C de aquecimento global, vemos esse deslocamento geral para mais risco em lugares mais frios e em épocas mais frias do ano”, disse Raupach.
“Aumento do risco no inverno e muitas vezes redução no verão - uma mudança de regiões e estações mais quentes para mais frias.”
O cabo de guerra atmosférico
O motivo de o granizo reagir de maneira contraintuitiva ao aquecimento é que temperaturas mais altas empurram a atmosfera em duas direções ao mesmo tempo.
De um lado, uma atmosfera mais quente concentra mais energia, capaz de alimentar correntes ascendentes mais vigorosas - o motor do crescimento das tempestades de granizo. Correntes ascendentes mais fortes conseguem sustentar pedras maiores.
Do outro, o ar mais quente eleva a altitude em que o gelo começa a derreter durante a queda. Pedras menores, que em um clima mais frio alcançariam o solo, simplesmente derretem antes de chegar.
“A atmosfera pode estar mais propensa a criar tempestades, mas as tempestades que se formam podem ter menor chance de fazer o granizo chegar ao chão”, disse Raupach.
O resultado líquido é uma dinâmica de compensação: em algumas regiões surgem mais tempestades, porém uma parcela menor delas efetivamente entrega granizo na superfície. A preocupação é o impacto quando isso acontece.
“Pedras maiores são mais prováveis com uma dinâmica de tempestade mais forte”, disse Raupach. “Isso ainda traz implicações importantes para a agricultura.”
Culturas de inverno na linha de tiro
O estudo avaliou 26 tipos principais de culturas no mundo, estimando que fração do período de crescimento de cada uma ocorre sob condições favoráveis ao granizo - e como essa exposição deve mudar.
Para as culturas de inverno, o sinal foi nítido e preocupante.
Na Austrália, onde o trigo é a principal cultura de inverno, os aumentos mais marcantes das condições propícias ao granizo aparecem no sudeste, da Tasmânia seguindo pelo arco em direção a Melbourne e Sydney.
Essa área surge tanto nas tendências históricas quanto nas projeções futuras como um local onde o perigo está se intensificando.
Uma queda do risco de granizo no verão pouco significa para quem planta no inverno. O que realmente importa é se o risco fica maior exatamente quando a cultura está no solo.
Para triticultores do sudeste australiano, a resposta parece ser cada vez mais “sim”.
Deslocamento em direção aos polos
As conclusões também criam um incômodo para a forma como se pensa a adaptação da agricultura às mudanças climáticas de maneira mais ampla.
À medida que o aquecimento global torna regiões tradicionais de cultivo em latitudes mais baixas mais quentes e mais secas, costuma-se supor que a agricultura avançará rumo aos polos, para áreas mais frias que vão ficando mais viáveis.
O que este estudo indica é que parte dessas regiões que ganham potencial agrícola também passa a herdar maior risco de granizo.
Em alguns casos, a abertura de novas zonas de cultivo e a elevação da exposição a condições de tempestade danosas podem se anular.
Dificuldades para planejar em torno do problema
Para produtores, seguradoras e formuladores de políticas públicas, o granizo sempre foi um risco difícil de antecipar: basta um único evento severo para perder uma safra.
A incerteza nas projeções futuras é real, e Raupach é direto ao reconhecê-la. Em certos lugares, o desenho regional fica mais consistente do que em outros, e os trópicos continuam especialmente difíceis de modelar.
Ainda assim, segundo ele, a tendência geral de deslocamento é algo que a ciência consegue afirmar com confiança.
“É difícil. A incerteza e a dificuldade de entender exatamente o que está acontecendo é um dos desafios que enfrentamos, e que os tomadores de decisão enfrentam”, explicou.
“Mas podemos fazer afirmações amplas. E o deslocamento em direção aos polos é a afirmação ampla que podemos fazer aqui.”
Para um perigo que já recebe menos atenção em políticas públicas do que secas, ondas de calor ou enchentes - apesar de ser igualmente capaz de destruir em minutos o trabalho de uma estação - esse deslocamento merece bem mais escrutínio do que vem recebendo.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário