O Google acaba de divulgar seu relatório ambiental 2026, a publicação anual em que a empresa disseca o impacto ecológico das próprias operações ao longo do último ano. O diagnóstico é direto: a corrida acelerada pela inteligência artificial (IA) está pressionando ao limite os indicadores da companhia.
Crescimento do consumo de eletricidade no Google
Os dados apresentados pela gigante de Mountain View impressionam. De um ano para cá, a necessidade de eletricidade do Google aumentou 37%. E, quando se observa um período maior, a escalada fica ainda mais evidente: desde 2019, o consumo elétrico da empresa disparou 250%.
Essa demanda voraz tem uma explicação clara: a expansão intensa - e em ritmo muito rápido - da infraestrutura necessária para sustentar os novos produtos de IA generativa, que passaram a conviver com serviços tradicionais como Search e YouTube.
“A maior mudança no nosso impacto ambiental é a expansão da nossa infraestrutura técnica, e a energia necessária para operá-la”, reconhece a empresa. Afinal, manter e resfriar milhares de novos servidores extremamente potentes exige cada vez mais energia. Esse apetite gigantesco entra em choque com as metas ambientais que a companhia diz perseguir.
A IA avança rápido demais
Em 2020, o Google estabeleceu uma meta especialmente ousada para 2030: chegar a emissões líquidas zero e operar toda a sua atividade com energia de baixo carbono, 24 horas por dia. Só que, agora, esse objetivo parece mais distante.
O motivo é que, embora o Google coloque muito dinheiro em solar e eólica, a evolução da tecnologia corre em uma velocidade maior do que a transição das redes elétricas ao redor do mundo. “Nossa implantação de infraestrutura de IA atualmente acelera mais rápido do que a rede se descarboniza”, afirma a companhia.
Na prática, o resultado é paradoxal: mesmo com uma queda de 2% nas emissões diretas, a pegada de carbono total do Google aumentou. O que pesa no balanço são as emissões indiretas, que cresceram 25%. Nessa conta entram, entre outros fatores, a construção de centros de dados e a fabricação de chips e componentes logísticos na Ásia, onde as fábricas de fornecedores ainda dependem fortemente de combustíveis fósseis.
“Estamos navegando na tensão entre hiper-crescimento e administração ambiental”, resume Kate Brandt, diretora de sustentabilidade do Google, ao mesmo tempo em que alerta que “o caminho […] não será linear”.
Como o Google tenta reduzir seu impacto
Ainda assim, o Google diz estar trabalhando para diminuir o custo energético dos seus modelos e começa pela otimização de tecnologias próprias. De acordo com o relatório, a sétima geração de chips internos voltados à IA, chamada Ironwood, entrega uma eficiência energética 30 vezes superior à de 2018.
Ironwood e a eficiência do Gemini
Além disso, a empresa afirma que, em 12 meses, a pegada de carbono de uma requisição textual no Gemini foi reduzida em 44, graças ao avanço combinado de hardware e software. Mesmo com esse progresso, a própria companhia admite que isso não resolve o problema. Para manter suas ambições climáticas sem reduzir o ritmo na disputa com concorrentes, o Google passou a buscar alternativas energéticas mais radicais.
Energia nuclear, geotermia e fusão
Nesse contexto, a empresa anunciou um acordo para reativar a usina nuclear de Duane Arnold, no estado de Iowa, com o objetivo de garantir 600 megawatts de eletricidade estável até 2029. Paralelamente, vem fechando contratos em geotermia e financiando projetos experimentais de fusão nuclear.
Apesar disso, na prática, o Google trata a alta de sua pegada de carbono como um mal necessário - apostando que isso permitirá desenvolver uma inteligência artificial que, potencialmente, ajudará a salvar o planeta. É uma aposta bastante arriscada, que levanta questionamentos importantes… e ainda resta ver se outros hyperscalers, com Microsoft e Amazon à frente, seguirão a mesma direção.
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