O transporte aéreo aproxima continentes, mas também contribui para aquecer o planeta. Um estudo recente aponta uma alternativa direta: aviões podem fazer pequenos ajustes na altitude de cruzeiro para evitar a formação de rastros de condensação.
Essas faixas brancas que aparecem atrás das aeronaves podem ser reduzidas com mudanças discretas na forma de voar - e, segundo a pesquisa, isso pode diminuir o impacto climático da aviação muito mais rapidamente do que diversas outras medidas.
Liderado pela Universidade de Cambridge, o trabalho conclui que a estratégia não exige aviões novos nem troca de combustível. As companhias aéreas poderiam aplicar os ajustes com sistemas que já existem hoje.
O que exatamente são rastros de condensação
Os rastros de condensação se formam quando os gases quentes do escapamento das aeronaves se misturam com ar muito frio e úmido em grandes altitudes.
Nessa condição, o vapor d’água congela em cristais minúsculos de gelo e dá origem a nuvens finas, que podem permanecer no céu por horas.
Embora pareçam inofensivos, esses rastros retêm calor na atmosfera. O efeito de aquecimento associado a eles é comparável ao de todo o dióxido de carbono liberado pela aviação desde o início da era do jato.
Por isso, eles representam uma parcela relevante do problema climático.
O aquecimento “invisível” da aviação
Para muita gente, o dano climático da aviação se resume ao dióxido de carbono. Porém, rastros de condensação e outros efeitos ampliam consideravelmente o impacto total.
Até 2050, os rastros de condensação, sozinhos, podem gerar mais aquecimento do que as emissões de dióxido de carbono da aviação.
De acordo com o estudo, a aviação pode consumir cerca de 19% do orçamento global de temperatura que ainda resta para manter o aquecimento abaixo do limite de 2°C (3.6°F) do Acordo de Paris.
Na prática, isso indica que a contribuição do setor para a mudança do clima pode ser maior do que muitos imaginam.
Uma pequena mudança com resultados grandes
"Evitar rastros de condensação muitas vezes pode ser tão simples quanto ajustar as rotas de voo", afirmou a autora principal, Dra. Jessie Smith, do Departamento de Engenharia de Cambridge.
"Muitas vezes é ainda mais simples do que isso – basta subir ou descer ligeiramente a altitude para evitar as áreas da atmosfera onde os rastros de condensação se formam."
Para avaliar a proposta, os pesquisadores recorreram a um modelo climático chamado modelo de Impactos Climáticos e de Qualidade do Ar da Aviação.
Os resultados indicam que desviar de condições favoráveis aos rastros de condensação poderia recuperar cerca de 9% do orçamento global de temperatura restante até 2050 - um efeito expressivo para uma alteração operacional relativamente simples.
Impacto mais rápido do que cortar carbono
"O que me surpreendeu foi a rapidez com que essa economia de temperatura poderia acontecer", disse Smith.
"Em uma década, dá para retirar uma parcela realmente grande do impacto de aquecimento da aviação com muita rapidez. Isso é incomum na ciência do clima, onde a maioria das mudanças leva muito tempo."
Ao contrário do dióxido de carbono, que permanece na atmosfera por um período longo, os rastros de condensação duram pouco. Assim, reduzi-los tende a diminuir o aquecimento em menos tempo.
Em outras palavras, evitar rastros de condensação pode estar entre as maneiras mais rápidas de reduzir o impacto climático da aviação.
E se nada mudar?
O estudo alerta para consequências importantes caso não haja ação. Se as companhias não fizerem ajustes, os rastros de condensação podem causar cerca de 0.054°C (0.097°F) de aquecimento até 2050.
A pesquisa também destaca que o maior perigo é a demora. A cada ano de atraso, o mundo pode chegar a 2050 um pouco mais quente.
Um adiamento de 10 anos pode cortar a eficácia dessa solução em cerca de 78%.
Alterar trajetórias de voo pode aumentar levemente o consumo de combustível. Ainda assim, o estudo aponta que o aquecimento extra associado a esse combustível adicional é muito menor do que o resfriamento resultante de menos rastros de condensação.
Mesmo em cenários de pior caso, a queda no aquecimento é muito superior ao aumento das emissões; em muitos casos, o benefício supera com folga o custo.
Como isso pode funcionar na prática
"É uma mudança operacional, não tecnológica", disse Smith.
"Você não precisa modificar aeronaves. Só precisa definir como isso vai operar e, depois, o sistema já está pronto para isso – os pilotos fazem essas manobras o tempo todo."
"É por isso que temos mais esperança nisso do que em outras intervenções como combustíveis sustentáveis de aviação, que enfrentam enormes obstáculos de infraestrutura e cadeia de suprimentos."
Aviões já ajustam rotas para escapar de turbulência ou tempestades. O mesmo princípio pode ser usado para contornar regiões em que os rastros de condensação se formam, o que torna a proposta viável e fácil de testar.
Um passo simples rumo à ação climática
"Depois que isso estiver feito, a política pode vir na sequência. Mas a modelagem mostra claramente que você não quer esperar por condições perfeitas antes de começar."
O estudo indica que até um sucesso parcial já ajuda. Mesmo que a prevenção de rastros de condensação funcione com apenas 25% de eficiência, ainda assim há redução de aquecimento.
Começar cedo, portanto, gera mais ganhos do que aguardar sistemas ideais.
"Não estamos dizendo que isso resolve tudo", disse Smith. "Mas poderia fazer uma diferença muito grande."
Evitar rastros de condensação não elimina, por si só, o problema climático da aviação. No entanto, oferece um caminho rápido, simples e de baixo custo para reduzir o aquecimento.
Com apoio de companhias aéreas, formuladores de políticas e sistemas de controle de tráfego aéreo, uma pequena mudança na forma de voar pode contribuir de maneira significativa para proteger o planeta.
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