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Defesa aérea integrada e a proposta do Steel Dome (Cúpula de Aço)
A transformação dos sistemas integrados e multicamadas de defesa aérea continua em ritmo acelerado. Diferentemente do que se via no passado, hoje não faz sentido pensar essas plataformas de forma isolada: elas precisam operar conectadas, como parte de um ecossistema de capacidades capaz de reagir com eficiência e eficácia a ameaças aéreas que atuam nos níveis tático, operacional e estratégico do campo de batalha, em ambientes operacionais contestados.
Nesse cenário, a Turquia vem impulsionando um desenvolvimento de destaque por meio da empresa nacional ASELSAN. Segundo representantes da companhia, durante a visita que a Zona Militar realizou às suas instalações de integração de sistemas em Ancara, o sistema de defesa aérea Steel Dome (ou Cúpula de Aço) foi concebido como uma resposta multidomínio, multicamadas, multissensor e multiefetor, incorporando tecnologias de inteligência artificial contra ameaças que vão de drones a aeronaves e mísseis balísticos, entre outras.
Experiências em combate, drones e a equação de custos
Com base nas lições operacionais extraídas do conflito na Síria, ASELSAN e as Forças Armadas da Turquia tiveram uma primeira noção do peso que drones e outros sistemas não tripulados passariam a ter no combate. Essa tendência seria confirmada depois, em toda a sua extensão, no conflito do Alto Carabaque entre Armênia e Azerbaijão - e, mais tarde, mostraria sua face mais dura na guerra russo-ucraniana.
A leitura feita pela ASELSAN é clara: quando sistemas de defesa aérea atuam sozinhos, sem comunicação rápida e eficaz com centros de comando e controle, e com capacidade limitada para detectar, processar, classificar e neutralizar ameaças, tornam-se alvos fáceis diante da ação de veículos aéreos de diferentes tipos.
E isso tem um impacto direto na eficiência e na sustentabilidade. O fato de um sistema de defesa aérea que custa milhões - e até centenas ou milhares de milhões - de dólares ser destruído por um ou mais drones avaliados em apenas alguns milhares de dólares evidencia a mudança do campo de batalha, exigindo que as forças militares se adaptem, evoluam e respondam para não serem neutralizadas.
Esse ponto também pesa na lógica de custos e na capacidade de manter operações. Atualmente, diferentes forças armadas buscam capacidades que sejam não apenas eficazes, mas também economicamente eficientes, disponíveis em quantidade e prontas para uso em qualquer momento e lugar - além de sustentadas por estoques robustos e por capacidade produtiva que mantenha o abastecimento das unidades em operação.
Aproveitando essas experiências no desenvolvimento e na avaliação de seus sistemas, a ASELSAN afirmou que uma das conclusões centrais é a necessidade de escolher o efector mais barato e mais adequado para cada tipo de ameaça. Para isso, são indispensáveis meios de detecção, rastreio, processamento, análise, classificação e neutralização que operem em janelas de tempo cada vez menores.
Outra lição incorporada ao Steel Dome envolve elevar a capacidade de processamento com base na adoção de técnicas e tecnologias de inteligência artificial, automação de processos e ferramentas de apoio para acelerar a tomada de decisão dos operadores humanos. Isso depende de um fluxo contínuo de dados e de redundância na provisão de informações em tempo real a partir de múltiplas fontes.
DRONEDEF: a primeira e a última camada do Steel Dome da ASELSAN
Conhecendo o DRONEDEF, a primeira e a última camada de defesa do Steel Dome da ASELSAN
Durante a visita às instalações da ASELSAN em Ancara e em seus arredores, a Zona Militar teve o primeiro contato com o que compõe a primeira - e, na prática, também a última - camada de proteção do sistema. Essa camada é voltada a neutralizar ameaças aéreas como drones FPV, munições merodeadoras, enxames de drones e aeronaves de baixo custo.
Nessa faixa inicial de defesa do Steel Dome, a ASELSAN concentra um conjunto amplo de recursos soft-kill, incluindo micro-ondas, energia dirigida e interferência eletrônica, além de meios hard-kill tradicionais baseados em sistemas antiaéreos de curto e muito curto alcance. Entre eles aparecem diversas variantes do KORKUT e outros sistemas de menor calibre.
Como parte da agenda, tivemos contato inicial com várias soluções soft-kill e assistimos a uma demonstração de capacidades no Centro Tecnológico de Testes que a empresa mantém em Gölbaşı, onde esses sistemas foram apresentados.
Soft-kill: detecção, identificação e interferência
Entre os meios exibidos, chamou atenção o sistema antidrones İHTAR. Com alcance superior a 25 quilômetros, ele desempenha uma função dupla de detectar, identificar e neutralizar UAV e enxames, combinando sensores AESA e sistemas eletro-ópticos para o acompanhamento das ameaças por televisão ou por visores térmicos.
Energia dirigida: GÖKBERK e GÖKBERK 10
No conjunto de soluções de energia dirigida (popularmente tratadas como “sistemas laser”), destacou-se o GÖKBERK em duas configurações. Uma delas é móvel, instalada em um caminhão 6×6, equipada com um laser de 5 kW de potência. Essa versão oferece capacidade de neutralização de curto e muito curto alcance, em distâncias entre 150 metros e 2 quilômetros. Também foi apresentada uma variante mais potente, denominada GÖKBERK 10, dotada de um laser de 10 kW.
Complementando o soft-kill, havia ainda o EJDERHA, baseado em um emissor de ondas eletromagnéticas capaz de destruir sistemas eletrônicos e circuitos integrados de drones, neutralizando-os tanto individualmente quanto em cenários de enxame.
Hard-kill de baixo custo e proteção próxima
No campo dos meios hard-kill exibidos, apareceu o GÖKALP, que usa um método hit-to-kill por meio do emprego e lançamento de um efector físico para neutralizar drones. O alcance vai de 1.000 metros na versão Classe 1 a 7.000 metros nas versões Classe 2 e 3, oferecendo uma alternativa de baixo custo que complementa as soluções anteriores.
Vale acrescentar que o DRONEDEF também integra opções baseadas em canhões e outros armamentos compactos. É o caso do MİĞFER, cuja missão principal é proteger os próprios sistemas antiaéreos - que, assim como os alvos que defendem, podem ser atingidos por ataques de drones ou por outras ameaças.
Esse sistema utiliza armamento leve de calibre 12 mm e atua como complemento a soluções antiaéreas de maior calibre e potência, como o já conhecido KORKUT de 25 mm e 35 mm. A proposta é que ele seja simples de instalar e integrar, tanto em estações de armas fixas quanto em veículos blindados e utilitários, conforme a necessidade.
Conclusões
O primeiro contato com o DRONEDEF reforçou o grau de sofisticação alcançado pela indústria de defesa turca, em geral, e pela ASELSAN, em particular. Na empresa, há consciência de que as ameaças evoluem em velocidade crescente e de que a adaptação precisa ser permanente.
Para atender a essa realidade, a ASELSAN vem fazendo investimentos relevantes não só em infraestrutura - com a expansão de instalações em Ancara -, mas também na capacitação contínua de suas equipes e na incorporação de tecnologias de inteligência artificial, buscando responder de forma eficiente e eficaz às demandas e necessidades de seus clientes, derivadas da experiência operacional acumulada.
Por isso, embora o DRONEDEF seja apresentado como a primeira camada de defesa, na nossa avaliação ele também se consolida como a primeira e a última linha de proteção do sistema de defesa aérea Steel Dome.
Como se viu na guerra russo-ucraniana, drones deixaram de ser lançados a centenas de quilômetros dos alvos e passaram a partir de distâncias cada vez menores - inclusive desde o próprio território dos beligerantes. Basta lembrar a Operação Teia de Aranha, conduzida pelas Forças Armadas da Ucrânia, que deslocaram para dentro do território russo caminhões civis camuflados, cujos reboques traziam sistemas de lançamento de drones FPV que atacaram bases aéreas das Forças Aeroespaciais Russas, com ênfase especial em aeronaves de aviação estratégica.
Esse histórico indica que sistemas como o DRONEDEF da ASELSAN se tornaram necessários para operar em ambientes contestados, suscetíveis a infiltrações por diferentes meios - desde os caminhões empregados na Operação Teia de Aranha até ações de forças de operações especiais que empreguem capacidades não tripuladas para atingir e tirar de combate sistemas críticos de defesa aérea, como foi observado meses atrás em ataques israelenses contra sistemas antiaéreos iranianos.
Por fim, no caso da ASELSAN e da Turquia, é importante considerar que o país está cercado por conflitos em andamento ou por situações potencialmente instáveis que podem exigir o emprego das Forças Armadas turcas. Ao norte da península da Anatólia, persiste a guerra russo-ucraniana, sem perspectiva clara de término; a leste, seguem as tensões históricas com a Armênia, que recentemente se envolveu em conflito armado com o Azerbaijão - país com o qual a Turquia mantém fortes vínculos geográficos, históricos, culturais e linguísticos; ao sudeste, mesmo após a queda do regime de Bashar al-Assad, a Síria continua no radar; e, a oeste, permanecem complexas as relações entre Grécia e Turquia, com destaque para a questão de Chipre. Também não se deve deixar de mencionar o conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, bem como as possíveis consequências que dele decorram e que possam afetar o país, apesar de a Turquia não fazer fronteira com os dois últimos.
Da Zona Militar, nosso agradecimento especial à equipe da ASELSAN.
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