Jared Isaacman, definitivamente, não se comporta como quem ocupou o cargo antes dele - mesmo que isso signifique reacender uma controvérsia com duas décadas. Ao recolocar Plutão no centro da discussão, o que o novo chefe da agência espacial dos EUA realmente pretende?
Por que Plutão deixou de ser planeta em 2006 (UAI)
Durante 76 anos, Plutão foi tratado como planeta, no mesmo patamar dos demais integrantes do Sistema Solar. Em 2006, porém, a União Astronómica Internacional (UAI) decidiu reavaliar o seu estatuto e rebaixá-lo com base em três exigências.
Para receber o rótulo de planeta, um corpo celeste precisa, antes de tudo, orbitar o Sol - algo que Plutão faz. Em seguida, deve ter massa suficiente para que a própria gravidade o molde numa forma quase esférica - também é o caso. O problema aparece no terceiro ponto: a obrigação de ter “limpado” a sua órbita, eliminando outros objetos de dimensão comparável, seja por colisão, seja por captura gravitacional.
Lá nos confins do Cinturão de Kuiper, Plutão divide espaço com dezenas de milhares de corpos rochosos, alguns com tamanhos semelhantes. Por isso, foi reclassificado como “planeta anão”, tal como Ceres ou Éris. A decisão abriu uma fratura dentro da comunidade científica, com dois campos que continuam a discordar até hoje - muitos convencidos de que a UAI agiu depressa demais no congresso de verão em que o rebaixamento de Plutão foi formalizado.
MPAPA no Senado: Plutão volta à pauta da NASA
Vinte anos depois, a disputa reapareceu a partir das galerias do Senado dos Estados Unidos. Jared Isaacman, 15º administrador da NASA nomeado por Donald Trump, declarou estar “firmemente no campo ‘Make Pluto A Planet Again’ (MPAPA)” - isto é, entre os que querem ver Plutão voltar a ser planeta.
Ele acrescentou ainda que a agência estaria, neste momento, a trabalhar em “publicações para levar essa posição à comunidade científica”. Com um slogan que lembra de forma explícita o MAGA (“Make America Great Again”), popularizado por Trump na sua primeira campanha, é difícil não reagir com um certo desconforto - e difícil também não perguntar quem ganharia com essa reabilitação.
Querer e poder: o grande mal-entendido de Isaacman e da NASA
A NASA nunca tinha tido um dirigente como Isaacman. Ele não é engenheiro de formação, embora seja apaixonado por aviação militar e acrobática nas horas vagas. Empresário e bilionário, fundou a Shift4 Payments (empresa de processamento de pagamentos seguros) aos 16 anos - negócio que continua a comandar - e também a Draken International, dona da maior frota privada de caças do planeta.
Além disso, ele co-lidera e financia o Programa Polaris, uma organização parceira da SpaceX criada para acelerar voos espaciais privados. Por esse caminho, tornou-se, em 2024, o primeiro civil a realizar uma atividade extraveicular. Em suma, ele encarna a nova cara da corrida espacial: privatizada e um pouco “bling-bling”; um oligarca à moda americana. Avesso a poses institucionais polidas e mornas, faz com que os seus antecessores pareçam hoje velhos dinossauros - em geral oriundos do universo administrativo ou militar.
Um perfil tão fora do padrão ajuda a entender melhor a sua postura sobre Plutão. Nenhum administrador anterior teria se aventurado num tema que nem sequer está sob as suas atribuições, já que é a UAI - e apenas ela - que define a classificação dos planetas. Isaacman, por sua vez, vai em frente.
O seu argumento central é fazer justiça a Clyde Tombaugh, o astrónomo americano que descobriu Plutão em 1930, sustentando, dentro do meio científico, “uma posição que gostaríamos de fazer avançar para reabrir esse debate e garantir [que ele] receba o reconhecimento que teve no passado e que merece, com toda a justiça, voltar a receber”.
Trata-se de soft power ideológico em versão básica, com forte tom nacionalista e uma camada generosa de astronomia por cima. A descoberta foi americana; logo, a nomenclatura planetária deveria alinhar-se ao orgulho nacional. Por extensão, o cosmos também deveria combinar com a ideia que Washington faz dele: MPAPA ou MAGA, a lógica é a mesma - apenas em escalas diferentes.
Reações da comunidade científica: Mike Brown e Bill McKinnon
Como já foi dito, a NASA não tem qualquer autoridade sobre a classificação dos planetas - Isaacman teria esquecido essa hierarquia? Ainda mais porque ele aparentemente não consultou membros da UAI antes de fazer declarações desse tipo. Isso não agradou a Mike Brown, professor de astronomia planetária no Caltech e personagem central do debate de 2006 sobre Plutão.
Para Brown, os cientistas continuarão a classificar os objetos “da forma que realmente nos ajuda a compreender o mundo em que vivemos”, independentemente do que diga um administrador da NASA.
Bill McKinnon, diretor do McDonnell Center for the Space Sciences, define toda essa discussão como “perda de tempo”. E não deixou o recado passar em branco, completando: “Plutão é, claro, um planeta, mas um planeta anão; uma subespécie de planeta”. Um jeito de dizer que Isaacman pode até ter razão no conteúdo, mas erra na forma.
Dá para imaginar que esse não era exatamente o tipo de apoio que o chefe da agência esperava. É justo reconhecer a Isaacman o impulso - e o mérito - de ter tirado a NASA do pó, algo de que ela precisava. Mas é bem mais difícil reconhecer a autoridade que ele se atribui num assunto para o qual não tem legitimidade. Ainda assim, não vale apedrejá-lo: ele não será o primeiro a confundir força de convicção com força de argumento.
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