Em Perpignan, a startup Korben já coloca em operação centenas de robôs para aliviar a falta de mão de obra em restaurantes e hospitais. Ao criar um “cérebro” de software francês e soberano, o fundador Lucas Goumarre quer se posicionar como o Microsoft de uma robótica finalmente útil, prática e colaborativa.
Na hora de automatizar tarefas com robôs, muitas empresas acabam esbarrando em equipamentos sofisticados e difíceis de operar no dia a dia. É justamente esse obstáculo que a Korben for people pretende derrubar. Criada em Perpignan pelo empreendedor Lucas Goumarre, a startup quer assumir o papel de cérebro da robótica de serviço.
O diagnóstico, segundo ele, é direto: a demografia está em queda, e o impacto chega na disponibilidade de trabalhadores. Mesmo com milhões de desempregados na França, cerca de 400 000 vagas seguem em aberto em áreas como limpeza, segurança e alimentação. “O interesse da robótica é preencher essa lacuna: quando analisamos essas vagas não ocupadas, percebemos que, muitas vezes, são funções vistas como penosas, repetitivas e manuais, para as quais o recrutamento hoje está travado”, afirma Lucas Goumarre, em entrevista ao Presse-citron.
Na prática, a Korben opera uma frota de robôs de serviço voltados para limpeza, recepção e transporte de cargas. As máquinas já estão presentes em mais de 250 estabelecimentos - hotéis, restaurantes, cinemas, etc. - executando diferentes tarefas para reduzir a pressão sobre as equipes humanas.
Além disso, a empresa desenvolveu um software próprio capaz de “se conectar a qualquer marca de robô no mundo”. Assim como Apple ou Microsoft, Lucas Goumarre defende uma estratégia híbrida: o hardware é adquirido na China, mas a inteligência permanece francesa. “O valor está no software que vai dar vida ao robô”, diz ele, o que explica a ambição de se tornar um “Microsoft da robótica”.
O desafio da interoperabilidade e da soberania
De forma concreta, a proposta é fazer as máquinas “conversarem” entre si, porque, hoje, quem compra robôs com frequência termina com vários softwares que não se entendem. “Em um restaurante, um robô de limpeza pode bater em um robô de transporte, porque eles não se comunicam no mesmo ambiente”, exemplifica o CEO.
Na visão do fundador, a IA precisa viabilizar frotas capazes de se administrar sozinhas, elevando a eficiência, em vez de obrigar o usuário a alternar entre várias janelas de controle. Para ele, essa é também uma questão de soberania. Atualmente, 80 % da produção mundial de robôs de serviço está concentrada na Ásia. E esses equipamentos carregam câmeras e sensores que captam dados extremamente sensíveis; se o software for desenvolvido na China, então as informações acabam sendo enviadas para lá.
Ao criar sua própria camada de software e hospedá-la em servidores franceses - no caso, a OVH -, a Korben assegura que os dados captados em um hotel ou em um escritório sejam anonimizados e protegidos. Uma etapa considerada decisiva diante do cenário geopolítico.
A “cobótica”
A entrada de robôs no ambiente de trabalho inevitavelmente levanta o debate sobre o emprego. Ainda assim, Lucas Goumarre é categórico: “Eu vendo robôs feitos para trabalhar com o humano, não para substituí-lo”.
A ideia é realocar o tempo de trabalho para atividades de maior valor agregado. O exemplo de EHPAD (casas de repouso) é, nesse sentido, ilustrativo: ao delegar a limpeza do chão a uma máquina, os agentes de serviço conseguem “voltar o foco para o coração do trabalho, que é o vínculo social” e o cuidado com os residentes, explica o cofundador.
Nessa lógica, ele acredita que a robótica vai transformar funções e rotinas. “A faxineira de amanhã vai operar e fazer a manutenção de robôs”, projeta, antes de lembrar que “na China, onde 8 milhões de robôs de serviço já foram implantados, a taxa de desemprego continua muito baixa”. Para ele, isso indica que não existe uma relação direta entre robotização e destruição de postos de trabalho.
De Perpignan à conquista do mundo
A Korben agora acelera. Mirando 15 milhões de euros de faturamento em 2027, a startup aposta em um modelo híbrido que combina locação de equipamentos e assinaturas de software. Para sustentar esse ritmo, uma captação de 10 milhões de euros está sendo preparada para 2026. Esse “tesouro de guerra” deve permitir que a empresa mude de escala, primeiro na Europa e, depois, na América do Norte.
Para Lucas Goumarre, porém, o movimento mais ousado está em outro ponto: levar sua inteligência de software para a Ásia. “Eu já estou em conversa para vender software francês a industriais chineses”, conta. Seria uma inversão marcante em um setor normalmente dominado por importações asiáticas. “Normalmente, somos invadidos por produtos ou software que vêm da Ásia… Queremos fazer o exemplo contrário”, finaliza. O desafio está colocado.
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