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Banco Mundial recua dos compromissos climáticos sob Donald Trump

Mulher de terno caminhando com documentos, protesto ambiental e notas de dinheiro voando ao redor.

Quando o principal acionista de uma instituição que deveria financiar o futuro do planeta prefere jogar fora os próprios compromissos ambientais sob ameaça da administração Trump, fica evidente que a governança climática global ainda permanece refém de um único país.

Banco Mundial abandona a meta de 45% para o clima

Em 2023, durante o governo de Joe Biden, o Banco Mundial (BM) estabeleceu uma diretriz inédita na sua trajetória: direcionar 45% dos seus recursos anuais de empréstimos para projetos climáticos com múltiplos benefícios - uma ambição que substituía a meta anterior, de 35%. Na segunda-feira, 29 de junho, a instituição anunciou que estava “se retirando” desses compromissos para se alinhar à doutrina económica e fóssil America First, promovida por Donald Trump e seus aliados desde o retorno à Casa Branca.

CCAP prorrogado, mas esvaziado de recursos

Ao mesmo tempo, o BM informou que estenderia o seu CCAP (Climate Change Action Plan), que deveria expirar no dia seguinte. Com essa manobra, a instituição mantém, no papel, uma estrutura voltada ao combate ambiental nos seus organogramas; porém, ela a priva do orçamento indispensável para qualquer ação concreta, enquanto se reserva o prazer de bajular o Tio Sam. Trata-se de uma rendição abjeta, que sugere que o cheiro do petróleo norte-americano agrada mais aos banqueiros do que a urgência climática.

A guinada conservadora sobre as prioridades climáticas globais

Essa capitulação se explica, em primeiro lugar, pela posição de Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA. Camaleão de Wall Street, esse magnata das finanças passou parte da vida apostando no colapso de moedas ao lado de George Soros e hoje veste a fantasia de salvador da indústria norte-americana e das classes populares. Já em 2025, ele havia intimado o Banco Mundial e o FMI (Fundo Monetário Internacional) a regressarem à sua “missão principal”, alegando que as instituições teriam se afastado demais do desenvolvimento em sentido estrito para se aventurarem em temas considerados ideológicos, como clima ou género.

Em abril de 2026, ele voltou à carga e classificou como “míope” a obsessão do BM pelas metas climáticas. Chamar de cegos aqueles que se preocupam com o fim do mundo, depois de passar a própria carreira sem enxergar além do próximo trimestre fiscal, é um exemplo forte de dissonância cognitiva. Mas a incoerência pouco importa: na América de Trump, acusar as finanças globais de olhar para o termóstato do planeta é a melhor forma de garantir que os negócios sigam girando à sombra das plataformas de perfuração.

“Verde” combina pouco com vocês

Ajay Banga (ex-diretor executivo da Mastercard), hoje presidente do BM, chegou ao comando da instituição em 2023 com a missão de fortalecer o arsenal financeiro da luta climática. Desde então, porém, ele guardou com cuidado a fantasia de reformador verde para vestir um traje mais confortável: o do burocrata subordinado a Washington.

É dele, em particular, a doutrina do smart development, um novo biombo lexical para um greenwashing institucional sem constrangimento. No discurso, a proposta seria parar de separar, de modo simplista, o “desenvolvimento” de um lado e o “clima” do outro. O Banco Mundial sustenta que, ao desenhar projetos de desenvolvimento (construção de estradas, escolas, redes elétricas ou outras infraestruturas), eles precisam obrigatoriamente exibir ao menos um aval ecológico mínimo.

Na prática, essa linha funciona sobretudo como uma maneira de o BM aparentar que está a serviço do clima sem parecer - e, principalmente, sem que isso apareça nas contas.

A fratura entre acionistas e o protesto liderado pela França

As novas prioridades financeiras do Banco Mundial estão longe de gerar consenso e chegaram a produzir uma fissura geopolítica entre os países que abastecem o seu caixa. Em outubro passado, a França e outros dezoito países acionistas assinaram uma carta conjunta para defender a manutenção dos compromissos assumidos três anos antes. Os Estados Unidos, maior acionista da instituição, naturalmente recusaram-se a assinar, ao lado da Rússia, do Kuwait e da Arábia Saudita. Índia e Japão, por sua vez, optaram pela abstenção. Essa reação, contudo, teve efeito de fogo de palha: quando o Tio Sam abre a porta do ceticismo orçamental climático, aos demais só resta baixar a cabeça e guardar os grandes princípios ecológicos no armário.

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