O painel dedicado ao comércio de automóveis usados na 36.ª Convenção Anual da ANECRA foi direto ao apontar o momento que o setor vive. Entre operadores, gestores e especialistas, um termo se repetiu continuamente: “margem”. A fala que mais marcou a discussão veio de Gonçalo Pais Simões: “As margens têm de aparecer. Senão vamos fechar portas.”
Regulação, RJIC e pressão sobre as margens no comércio de automóveis usados
A pressão sobre quem atua no mercado de usados é sentida em diferentes frentes, e um dos focos principais foi o Novo Regime Jurídico dos Intermediários de Crédito (RJIC). Cátia Serrano chamou atenção para o impacto potencial do novo enquadramento: “Se nos retirarem as comissões, deixa de ser rentável”, destacando o risco adicional para empresas menores e para clientes com baixo letramento financeiro. Na mesma linha, Américo Barroso alertou que “podem estar em causa muitos postos de trabalho.”
Com as mudanças previstas, muitos operadores terão de redesenhar o próprio modelo de negócio, já que as comissões têm sido essenciais para equilibrar margens. Pedro Gamboa reconheceu que, apesar do cenário incerto, a transição também pode abrir espaço para recalibrar estratégias; ainda assim, admitiu que a combinação de preços pressionados e margens apertadas exigirá decisões rápidas.
Mesmo com o contexto mais duro, houve consenso em um ponto central: trata-se de um setor resiliente, mas que não terá tempo a perder na adaptação. Entre regulação, margens curtas e concorrência crescente, o comércio de usados chega a 2026 com desafios bem definidos - e com a mesma frase ecoando na sala: “As margens têm de aparecer.”
“O desafio para 2026 é comprar melhor”
Outra questão ligada ao segmento dos usados passa pelo descompasso cada vez maior entre oferta e demanda. A importação de automóveis usados segue acima de 100 mil unidades por ano, ao mesmo tempo em que há forte procura por veículos Diesel - eles representam metade das leads geradas no Standvirtual. “O consumidor continua a pedir Diesel”, explicou Daniel Rocha, reforçando que o mercado reage onde ainda existe margem.
Para 2026, os operadores reconhecem que a diferença estará, sobretudo, na compra. “O grande desafio é comprarmos melhor”, afirmou Américo Barroso. “Do lado da venda não será fácil subir preços, por isso temos de encontrar os produtos certos, com preços certos”, completou.
O avanço do mercado de elétricos também entrou na discussão, mas com cautela. Gonçalo Pais Simões avisou: “Os elétricos ainda são um produto de risco. A desvalorização é difícil de prever”. Por isso, muitos operadores mantêm participação pequena desse tipo de veículo no estoque, como forma de reduzir a exposição.
Brokers, pós-venda e um consumidor mais exigente
Por fim, o painel abordou o papel dos brokers e a evolução do nível de exigência do consumidor. “O cliente está mais exigente do que nunca”, disse Cátia Serrano, destacando a necessidade de transparência, de um pós-venda consistente e de uma presença online sólida.
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