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Ferramentas de osso de 1,5 milhão de anos revelam raciocínio avançado em hominínios

Macaco pré-histórico sentado no solo seco manipulando ossos e ferramentas de pedra em cenário de savana.

Ferramentas de pedra, com bordas afiadas e fabricação intencional, sempre foram a janela mais nítida para entender como pensavam os nossos ancestrais mais antigos. Só que essa história, sustentada por décadas, acaba de ser colocada em xeque com a identificação de ferramentas de osso.

Um novo estudo da UCL e do CSIC–Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha traz uma conclusão surpreendente: seres humanos antigos já demonstravam raciocínio avançado cerca de 1 milhão de anos antes do que se acreditava. A evidência está em ferramentas de osso - algumas das mais antigas já registradas.

Ferramentas de osso mais antigas

A pesquisa descreve 27 ossos fossilizados que foram transformados em instrumentos há aproximadamente 1,5 milhão de anos. O conjunto representa o exemplo mais antigo conhecido de produção sistemática de ferramentas de osso, recuando a cronologia do uso avançado de instrumentos.

Os ancestrais humanos iniciais, chamados hominínios, já fabricavam ferramentas de pedra havia pelo menos 1 milhão de anos. Ainda assim, até agora, a visão predominante entre cientistas era a de que o uso regular de ferramentas de osso só teria começado por volta de 500.000 anos atrás.

A descoberta recente contraria essa interpretação, indicando que esses ancestrais dominavam o trabalho com mais de um tipo de matéria-prima.

Ferramentas de osso indicam pensamento avançado

As ferramentas de osso recém-identificadas foram moldadas com uma técnica comparável ao lascamento usado em pedras. Os hominínios removiam pequenas lascas para formar arestas cortantes, o que evidencia a capacidade de adaptação e de transferir um mesmo conjunto de habilidades entre materiais diferentes.

Isso aponta para uma capacidade cognitiva maior do que a previamente atribuída a humanos tão antigos.

“Os instrumentos mostram indícios de que seus criadores trabalharam os ossos com cuidado, destacando lascas para obter formas úteis. Ficamos entusiasmados ao encontrar essas ferramentas de osso em um período tão antigo”, observou a Dra. Renata F. Peters, da UCL Archaeology.

”Isso significa que ancestrais humanos eram capazes de transferir habilidades da pedra para o osso, um nível de cognição complexa que não vemos em nenhum outro lugar por mais 1 milhão de anos.”

Humanos antigos usavam mais do que pedra

“Essa descoberta nos leva a supor que humanos antigos ampliaram de forma significativa suas opções tecnológicas, que até então se limitavam à produção de ferramentas de pedra, passando a incorporar novas matérias-primas ao repertório de possíveis artefatos”, afirmou o pesquisador principal, Dr. Ignacio de la Torre (CSIC–Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha).

Essa mudança na fabricação de instrumentos mostra que humanos antigos tinham inteligência suficiente para aplicar a experiência adquirida com a produção em pedra a outros materiais. Foi um avanço importante na maneira como passavam a criar e utilizar ferramentas.

Descoberta na Garganta de Olduvai

As peças foram encontradas na Garganta de Olduvai, na Tanzânia, local célebre por concentrar descobertas fundamentais sobre humanos antigos. Os especialistas identificaram 27 ferramentas de osso, em sua maioria originadas de animais de grande porte, como elefantes e hipopótamos.

Os instrumentos foram feitos a partir das partes mais resistentes - ossos mais espessos das pernas -, o que sugere que os hominínios selecionavam deliberadamente o melhor material disponível.

Essas ferramentas de osso pertencem a um período em que ancestrais humanos estavam refinando a forma de produzir instrumentos.

Antes disso, durante a Idade Oldovana (que se estendeu de cerca de 2,7 milhões a 1,5 milhão de anos atrás), predominavam ferramentas de pedra simples, obtidas ao destacar pequenas lascas para criar bordas cortantes.

Uma mudança na fabricação de ferramentas

A Idade Acheulense começou por volta de 1,7 milhão de anos atrás. Nesse momento, humanos antigos passaram a produzir ferramentas de pedra mais elaboradas.

O achado de ferramentas de osso moldadas reforça que essas habilidades não ficaram restritas às rochas.

Antes dessa descoberta, ferramentas de osso eram consideradas raras e apareciam apenas em casos isolados. Não havia demonstração de que fossem produzidas de forma recorrente. Agora, porém, os novos dados sugerem que os hominínios podem ter utilizado ferramentas de osso muito antes e de modo mais disseminado do que se pensava.

O mistério das ferramentas de osso

A função exata dessas ferramentas de osso ainda não é conhecida. Pelos formatos, dimensões e arestas afiadas, é possível que tenham servido para processar carcaças de animais para alimentação. No entanto, não existe evidência direta que comprove qual era o uso específico.

Também não está definido qual espécie de hominínio as produziu. Nenhum resto fossilizado foi encontrado junto do conjunto. Na época, sabe-se que Homo erectus e Paranthropus boisei habitavam a região, o que faz desses grupos os candidatos mais prováveis.

Como o achado foi tão inesperado, os cientistas esperam que ele estimule arqueólogos a revisitar sítios de escavação antigos. Existe a possibilidade de que ferramentas semelhantes tenham sido encontradas no passado, mas não reconhecidas como relevantes.

A pesquisa recebeu financiamento do Conselho Europeu de Pesquisa (ERC), com o objetivo de apoiar a compreensão sobre como humanos antigos desenvolveram seu pensamento e sua tecnologia.

Créditos da imagem: CSIC

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