Em menos de dois anos, a startup francesa Mister IA saiu de uma newsletter simples e se transformou em uma potência de consultoria, com 150 colaboradores e um terço do CAC 40 entre os clientes. Conversamos com o cofundador Martin Pavanello, que faz um retrato direto - e sem rodeios - do mercado francês.
A trajetória da Mister IA começa em abril de 2023, no auge da explosão da IA generativa. “Quando teve o boom, e especialmente a partir de 2022 com o ChatGPT, pensamos: vamos criar uma newsletter para explicar às pessoas do que se trata, como isso pode ajudar, quais ferramentas existem”, relembra Martin Pavanello. A resposta do público veio rápido. Em pouco mais de quatro meses, a base chegou a algo entre 15.000 e 20.000 assinantes. “A gente via que havia uma tração muito forte. Então entendemos que era preciso dar um passo além para ajudar as empresas, de forma bem concreta, a colocar a tecnologia em prática”, continua.
A partir daí, a empresa organizou sua oferta em três pilares estratégicos: treinamento, consultoria tradicional para mapear os melhores casos de uso e, há cerca de um ano, gestão e parametrização segura de licenças de IA. Esse formato híbrido encontrou espaço especialmente entre grandes PMEs, empresas de porte intermediário (ETI) e a administração pública, antes de avançar com êxito para grandes corporações. Hoje, a Mister IA afirma ter um terço do CAC 40 em seu portfólio.
Esse avanço se apoia em uma proposta extremamente focada. Em vez de atuar como uma consultoria generalista, a equipe de Paris se mantém concentrada em um único recorte: “A gente é realmente um especialista exclusivo em IA generativa e, hoje, não se espalha para outras coisas. Então, conhecemos esse setor perfeitamente”. Essa especialização também gera efeito em cadeia dentro da empresa: “Hoje, 80% dos clientes que fazem treinamento com a gente também recorrem aos nossos serviços de consultoria em algum momento”, destaca o executivo.
O muro do orçamento
Sobre a adoção de IA na França, a Mister IA aponta o orçamento como o principal bloqueio. “Muitas empresas ainda não querem colocar os orçamentos, ou simplesmente não têm”, observa Martin Pavanello. Porém, não é só isso: o mercado também convive com falta de competências para usar, no dia a dia, as ferramentas que já estão disponíveis.
Na prática, muitas organizações procuram soluções “de ruptura”, complexas, quando ainda não dominam o básico do que já têm em mãos. Na visão do cofundador, o desafio é extrair mais valor das soluções de produtividade atuais, que continuam amplamente subutilizadas.
“Os chatbots simples de escritório de três anos atrás ficaram tão poderosos que muita gente não os domina por completo hoje. Um bom colaborador mal aproveita 30% ou 40% das capacidades de uma ferramenta como o Claude. Essa revolução dos assistentes de escritório está longe de acabar”, explica.
O impacto da IA nas contratações
Com essa adoção gradual, uma pergunta inevitavelmente ganha força: a IA vai eliminar empregos? Na Mister IA, a resposta é mais pé no chão e foge dos cenários apocalípticos. “No curto e no médio prazo, a gente não acredita muito nisso”, pondera Martin Pavanello. Por enquanto, o que aparece com mais clareza são ganhos de tempo imediatos e práticos dentro das equipes.
Ainda assim, a tecnologia pode representar um risco real para o futuro do trabalho. “O que é certo é que existe um risco muito forte que pesa sobre os trabalhadores do futuro”, alerta o especialista. Os aumentos de eficiência, de fato, dão às organizações margem para reduzir a ambição de crescimento em recursos humanos.
“Vemos isso todos os dias: nossas empresas clientes nos dizem: ‘Como estamos muito bem equipados, dá para absorver crescimento sem contratar’, ou contratando menos do que antes. É preciso se preparar”, detalha. Segundo seus próprios acompanhamentos, a Mister IA observa um ganho de tempo de cerca de 1 hora a 1 hora e 30 por pessoa, todos os dias, quando a IA é implementada corretamente.
10 milhões de euros para se tornar um líder europeu
Para acompanhar essa mudança e reforçar sua posição, a Mister IA está entrando em uma nova fase. No mês passado, a startup concluiu uma rodada de 10 milhões de euros, com a entrada do fundo Momentum Invest no capital. Para uma empresa de serviços em forte expansão, trata-se de um passo considerado essencial.
Com esse capital, a meta é explícita: ir além das fronteiras da França e ganhar escala no continente. “O objetivo é se tornar um líder europeu nesse tema de treinamento e consultoria em IA generativa”, afirma o executivo. A Mister IA, que já atende clientes em nove países, vai usar os recursos para estruturar equipes locais e abrir novos escritórios, além de acelerar por meio de aquisições.
“Estamos olhando muitos potenciais de compra de empresas, seja em treinamento de IA, em treinamento de cibersegurança com IA, ou no desenvolvimento de ferramentas”, conta o cofundador. Ao ampliar assim o leque de atuação, a empresa quer se firmar como parceira de longo prazo para as organizações. “A ideia é virar, para nossos clientes, a referência em IA, o especialista em quem eles vão se apoiar sempre que tiverem uma necessidade”, conclui. O espaço para crescer é enorme.
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