Os preços de RAM e de armazenamento estão a subir num ritmo acelerado. E as fabricantes já começam a absorver parte desse impacto ao cortar em outros itens das fichas técnicas.
O setor de eletrónica, como muita gente já percebeu, está a atravessar uma crise fora do comum. Com a construção de novos centros de dados voltados para IA, a procura por chips de memória disparou. O resultado é uma escassez que empurra para cima o custo da RAM e da memória de armazenamento para quem fabrica smartphones, PCs, consolas e outros dispositivos - e a curva continua a apontar para cima. Hoje, a memória já se tornou o componente mais caro dentro de um smartphone de gama média.
O que está por trás da alta de preços de RAM e armazenamento
De acordo com uma publicação recente da Omdia, no primeiro trimestre de 2026 a memória representava quase 60% do custo de componentes em aparelhos vendidos por menos de 400 dólares, e esse peso passava de 64% nos modelos abaixo de 99 dólares. E, infelizmente, o mesmo relatório indica que as marcas estão a tentar equilibrar o aumento do custo da memória ao reduzir o custo de outras partes da ficha técnica. Na prática, alguns smartphones acessíveis acabam por ser menos interessantes do que deveriam, por causa desta crise que atinge toda a indústria.
“Os fabricantes de smartphones tentam compensar em parte a pressão exercida pela alta dos custos de memória reduzindo o custo de outros componentes, como ecrãs, sensores e módulos de radiofrequência (RF), para os quais a oferta continua abundante”, explica a Omdia. Já nos modelos de entrada (os mais baratos), essa manobra de compensação tende a ser mais limitada.
Ecrãs menos avançados, menos sensores, etc.
Segundo a Omdia, algumas fabricantes chinesas já voltaram a usar ecrãs OLED do tipo LTPS em vez de LTPO, que é uma tecnologia mais avançada, em determinados modelos. Com isso, os ecrãs LTPO tenderiam a ficar restritos aos aparelhos verdadeiramente topo de gama. Essa troca permitiria poupar entre 3 e 5 dólares por dispositivo.
Além disso, a empresa aponta que as marcas podem rever a configuração das câmaras, seja adotando sensores menores, seja diminuindo a quantidade de sensores na traseira. E, no que diz respeito ao processador, algumas podem optar por um chip de geração anterior em vez de usar o componente mais recente num smartphone. Esse tipo de decisão poderia cortar custos em 30% a 40% em produtos acima de 600 dólares.
Em alguns casos, a consequência é ainda mais direta: certos modelos são simplesmente cancelados. A Nothing, por exemplo, decidiu não lançar o CMF Phone 3 Pro, que deveria ser um produto acessível, mas atrativo. “Estávamos a trabalhar num sucessor [do CMF Phone 2 Pro], mas, com os preços atuais da memória, não conseguimos construir um telemóvel que represente um avanço real a um preço coerente para a CMF”, explicou Akis Evangelidis, cofundador da Nothing. “Preferimos ser francos sobre isso a lançar um produto do qual não teríamos orgulho.”
Os smartphones mais baratos serão os mais afetados pela crise
Por causa desta crise ligada aos chips de memória, espera-se uma queda brusca nas vendas de smartphones em 2026. Ainda assim, segundo a leitura da Omdia, os dispositivos acima de 400 dólares devem aguentar melhor o cenário. A empresa prevê que, para esses aparelhos, as expedições cresçam 5,7% em 2026.
Isso acontece porque, em tempos de pressão de custos, as marcas tendem a concentrar esforços nos produtos mais caros. Além disso, o público de segmentos mais premium costuma ser menos sensível a aumentos de preço.
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