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O cartão bancário de plástico vive seus últimos anos? N26, pagamento móvel e Wero na Europa

Pessoa pagando com celular em uma maquininha de cartão sobre balcão de madeira em cafeteria.

O cartão bancário de plástico está perto de desaparecer? Entre a disparada do pagamento móvel e a chegada de novos padrões europeus, um em cada três clientes já optou por uma desmaterialização completa das finanças. Conversamos com Jérémie Rosselli, diretor-geral da N26 França, para entender esse ponto de virada que parece não ter retorno.

Há apenas dez anos, sair de casa sem a carteira parecia quase impensável. Em 2026, isso já não é mais regra. De acordo com os números mais recentes da neobanco N26, o retrato é claro: um em cada três clientes na Europa já deu o passo e não usa mais nenhum cartão físico. Para essa nova leva de usuários, o dinheiro e os pagamentos ficam simplesmente “embutidos” em um relógio ou no smartphone.

O que pode soar natural para quem adotou cedo esconde, na prática, uma mudança estrutural no mercado bancário europeu. A expansão acelerada do Apple Pay e do Google Pay - impulsionada pelo efeito de aceleração do período da Covid-19 - se soma ao surgimento de padrões como o Wero, em um cenário no qual a soberania monetária ganha novos contornos.

Hoje, quando a gente vai fazer compras, esquece mais vezes a carteira do que o celular. Essa é a realidade”, resume Jérémie Rosselli, diretor-geral da N26 França, em entrevista ao Presse-citron. Para ele, não se trata apenas de digitalizar o dinheiro, e sim de uma desmaterialização total do ato de pagar.

Otimizar a gestão do dia a dia

Nesse ambiente, o cartão físico - por muito tempo visto como símbolo de autonomia financeira - passa a parecer um volume a mais sem necessidade. “A gente vê, sobretudo, que existe um momento de virada, um antes e um depois do pagamento móvel, qualquer que seja a idade”, observa o executivo.

E esse movimento já não fica restrito aos mais “iniciados”: na N26, o grupo que mais cresce é o de pessoas acima de 55 anos, sinal de que a ergonomia finalmente derrubou barreiras geracionais.

A redução do plástico também tem relação direta com eficiência na rotina. Com cartões virtuais, uma mesma conta pode ser dividida em vários subcontas voltadas a objetivos específicos, cada uma conectada ao seu próprio cartão digital. Isso abre espaço para um controle de orçamento em tempo real que um cartão rígido não consegue igualar. “O próprio cartão tende a ser desmaterializado. Redes como Visa ou Mastercard já oferecem opções em que o nome não aparece mais, em que tudo é virtual”, destaca.

Além da praticidade, a segurança é o argumento que costuma convencer os mais desconfiados. Ao contrário do dinheiro em espécie ou de um cartão perdido, o pagamento pelo celular se apoia em biometria e permite governar tudo pelo aplicativo. Poder bloquear o cartão com um toque ou ajustar limites instantaneamente dá mais sensação de proteção do que os processos tradicionais de contestação e bloqueio.

Um padrão simples e fluido para todo o mercado europeu

Se o cartão físico recua, o que entra no lugar? Embora Apple e Google hoje liderem o pagamento móvel, a Europa tenta recuperar espaço com o Wero. Para o usuário comum, a promessa é de simplicidade radical: fazer uma transferência instantânea ou pagar um comerciante usando apenas o número de telefone ou um QR Code. Assim, deixa de ser necessário informar um IBAN trabalhoso ou depender exclusivamente das redes tradicionais de cartões. “Assim que você oferece uma solução que alcança um certo tamanho crítico e que é muito mais simples, ela atrai o mercado”, explica Jérémie Rosselli.

O exemplo frequentemente citado está bem perto. Nos Países Baixos, o iDEAL virou padrão na prática, a ponto de os consumidores pedirem naturalmente essa opção sempre que chegam ao caixa. O Wero quer se tornar esse “táxi” do pagamento: um serviço dedicado, flexível e soberano, capaz de levar o dinheiro de uma conta a outra sem intermediários desnecessários.

Para a N26, que já incorporou soluções de transferência instantânea sem cobrança de taxas, o desafio passa a ser levar esse mesmo nível de fluidez para todos os mercados europeus.

Do lado do varejo, o apelo também é financeiro: as taxas de transação costumam ser mais interessantes do que as praticadas pelas redes clássicas. “Tudo o que simplifica a vida do cliente acaba puxando o mercado para uma direção”, reforça o executivo.

Um modelo que sacode os bancos tradicionais

Essa nova agilidade confronta um antigo dogma do setor. Historicamente, muitos franceses permaneciam fiéis ao banco que aprovou o financiamento imobiliário - uma espécie de “totem” que as neobancos vêm derrubando. Para Jérémie Rosselli, o banco principal deixa de ser aquele que concentra a dívida e passa a ser o que administra o fluxo do dia a dia. “É só o banco que tem o crédito imobiliário ou é, no fim das contas, o banco que, todos os meses, gerencia a maior parte da sua renda?”, questiona.

Ao se posicionarem como plataformas de múltiplos serviços - onde já é possível abrir um PEA, investir em Bolsa sem taxas a partir de 1 euro, ou poupar em contas remuneradas em poucos cliques, como acontece na N26 - esses novos atores capturam o uso cotidiano, e não uma fidelidade “forçada”.

Com isso, o crédito deixa de ser o único mecanismo de retenção: o que passa a diferenciar é a experiência do usuário e a capacidade de colocar as pessoas em movimento em produtos financeiros que antes pareciam complexos. “O crédito imobiliário talvez não seja mais o único totem”, confirma a equipe da N26.

Resta uma dúvida: dá mesmo para viver sem cartão físico? Ao que tudo indica, sim. Embora Alemanha e Itália ainda mantenham forte apego ao dinheiro em espécie, a França e os países nórdicos já fizeram a transição.

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