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Memórias da Afurada no Mundial de 1994: Brasil x Itália e Roberto Baggio

Homem e menino com camisas do Brasil assistem futebol na TV enquanto comem frutos do mar e tomam cerveja.

Afurada, sardinha assada e futebol na rua

Algumas lembranças de bola vêm junto com o cheiro de sardinha na brasa. Naquela época, ela não quicava pelo calçamento das ruas rígidas da Afurada, no meio de tapetes bem estendidos, fogareiros e pares de tamancos e chinelos equilibrados, apoiados nas paredes das casinhas pequenas. Portas e janelas viviam escancaradas - um sinal de acolhimento que, até hoje, emociona quem passa pela freguesia de Vila Nova de Gaia.

Uma janela para os Estados Unidos da América

O futebol chegava cantado pelas transmissões em rádios a pilha, misturando-se ao barulho dos carrosséis, e também brilhava nas telas de televisores enormes, colocados com cuidado para que as partidas fossem vistas da rua. E, dali, abria-se uma janela para os Estados Unidos da América.

Passados 32 anos, ainda me surpreende como a memória daquele Mundial - o que cravou o meu amor pelo futebol - continua tão viva. Entre um intervalo e outro dos dias de praia e das partidas de pebolim nas barracas do São Pedro da Afurada (até hoje, a romaria que mais conversa com o meu coração), o grupo corria para as janelas, ávido por acompanhar os duelos entre as seleções.

Para quem hoje já se acostumou a ver Portugal na fase final do Mundial, parece estranho lembrar do costume imposto de ter que escolher outras equipes para torcer, para comemorar gols e vitórias. E, como portista, confesso: meu coração sempre bateu mais (e ainda bate) pelo azul e branco do que pelo vermelho e verde.

Mundial de 1994: Brasil x Itália e Roberto Baggio

Mas aquela era a minha realidade no verão de 1994: eu vibrava com os dribles da seleção canarinho de Bebeto e Romário e, ao mesmo tempo, observava com fascínio a muralha italiana conduzida pelo predestinado Roberto Baggio.

Há aprendizados que se pegam pendurado no parapeito de uma janela larga na Afurada, com os olhos grudados na tela de um televisor parrudo. Na final entre Brasil e Itália, foi justamente Roberto Baggio - embora, com inteligência mágica nos pés e um talento desmedido, tenha feito de tudo para levar a Itália até a decisão - quem mandou por cima do travessão a cobrança de pênalti que garantiu o tetra à canarinho. Os predestinados podem ser as joias das categorias de base, mas título só se conquista em equipe.

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