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Presença militar dos Estados Unidos na Europa: bases, OTAN e autonomia estratégica

Dois homens discutem plano estratégico com mapa da Europa, jato e capacete militar na mesa, e bandeiras ao fundo.

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A presença militar dos Estados Unidos na Europa é, sem exagero, um dos alicerces sobre os quais se sustentou a segurança do chamado Ocidente desde a Segunda Guerra Mundial. O que começou como uma força de ocupação destinada a preservar a estabilidade do continente - ou, mais precisamente, a conter a expansão soviética - acabou se transformando, pouco a pouco, em uma ampla malha de bases aéreas, navais e terrestres a partir das quais Washington consegue projetar poder, inclusive para além das fronteiras do Velho Continente. Paralelamente, esse posicionamento estratégico passou a ser parte central do arranjo defensivo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), oferecendo comando, logística, inteligência e até dissuasão nuclear - capacidades que, no curto prazo, dificilmente seriam substituídas pelos países europeus.

Mesmo com o sinal de continuidade representado pela permanência das Forças Armadas dos EUA na Europa após o fim da Guerra Fria - e apesar das adaptações feitas para acompanhar novos cenários estratégicos -, o momento atual é marcado por um aumento das dúvidas sobre o grau de compromisso futuro de Washington com a defesa europeia. Vários fatores contribuíram para isso, em especial durante os governos do presidente republicano Donald Trump: um líder fortemente crítico em relação a parceiros que considera “aliados”, difícil de antecipar quanto a próximos passos e com interesses que, muitas vezes, parecem divergir de forma relevante daqueles de seus interlocutores.

Um exemplo recente e bastante ilustrativo disso - que será retomado adiante - é a Operação Epic Fury, conduzida contra o Irã em coordenação com Israel; embora esteja longe de ser o único caso. Quem acompanha o tema tende a lembrar também da controvérsia em torno da Groenlândia, das idas e vindas sobre a ajuda militar à Ucrânia para conter o avanço russo, das menções recorrentes a planos de reduzir o número de meios hoje posicionados no continente e das cobranças a governos europeus para elevarem os investimentos em defesa. Como se vê, trata-se de um conjunto de frentes simultâneas, com implicações que exigem atenção.

Incerteza sobre o compromisso dos EUA e debates sobre autonomia estratégica

Como já indicado, tornou-se difícil disfarçar a inquietação nas capitais europeias quanto ao comprometimento de longo prazo dos Estados Unidos com a defesa do continente - inclusive entre líderes que antes demonstravam maior proximidade com o atual ocupante da Casa Branca. No mandato atual e também no primeiro período, entre 2017 e 2021, Donald Trump e seu partido transformaram em bandeira a contestação aos custos econômicos e estratégicos de manter dezenas de milhares de militares na Europa; ainda mais diante da ascensão da China no Indo-Pacífico como principal competidor geopolítico e das fricções com parceiros da OTAN.

Essas preocupações ganharam força recentemente com informações sobre eventuais reduções de efetivos norte-americanos em certas instalações europeias e sobre revisões da postura militar dos EUA no continente. Embora não se fale em abandonar a Europa, a sensação de sinais contraditórios vindos de Washington alimentou a incerteza sobre a futura distribuição de forças. Um exemplo útil é o caso dos mais de 5.000 soldados que o Pentágono buscaria retirar do território alemão - principal polo de presença norte-americana na Europa - e, ao mesmo tempo, o país de um chanceler que mencionava a “humilhação” imposta ao Estados Unidos pelo Irã nas hostilidades recentes.

Segundo um relatório recente do Escenario Mundial, países como Polônia, Estônia, Lituânia, Letônia e Romênia manifestam interesse em receber essas tropas. Isso não é aleatório: todos se encontram no flanco oriental da Aliança e, por manterem percepções de ameaça russa (sejam elas corretas ou não), buscam acelerar o reforço de suas defesas; receiam não conseguir conter uma ofensiva de Moscou por conta própria. Em termos práticos, isso se traduz na necessidade de apoio técnico e material por parte daquela que ainda é, sem contestação, a principal potência militar e econômica da OTAN - e do planeta como um todo.

Já na Europa Central, mesmo reconhecendo-se uma ameaça russa latente, o debate assume outra tonalidade. Países como a França, com longa tradição no assunto, defendem a urgência de discutir e promover a autonomia estratégica, em inevitável detrimento do vínculo com os EUA - a quem por muitos anos se delegou a defesa europeia. Com respaldo de países relevantes como Espanha e Alemanha, a proposta passa por desenvolver capacidades industriais próprias capazes de atender à demanda do setor de defesa e, ao mesmo tempo, impulsionar planos de curto e médio prazo para ampliar o efetivo e a prontidão das Forças Armadas.

Em uma posição que reconhece essa ambição, mas também as dificuldades de substituir o poderio norte-americano, situa-se a Itália e sua presidente do Conselho de Ministros, Giorgia Meloni. Em uma conferência realizada em janeiro, ela comentou com ironia: “Busco a luz em vez da sombra na minha relação e na relação da Itália com seus parceiros europeus e atlânticos, porque nos convém fortalecer esta área, que é nossa. Essa estratégia está errada? Então precisam formalizar a alternativa e me explicar o que se pretende. Ou seja, devemos nos distanciar no sentido de abandonar a OTAN? Devemos fechar as bases americanas? Devemos romper os laços comerciais? Devemos atacar o McDonald’s? Eu não sei. O que devemos fazer?

Um olhar sobre a rede de bases dos EUA na Europa

Diante desse cenário instável, vale relembrar como se organiza hoje a rede de instalações e a distribuição das forças norte-americanas em diversos países europeus, o que ajuda a dimensionar o tema em debate. Com base em dados do Council on Foreign Relations, trata-se de um posicionamento que, somado, reúne mais de 80.000 militares - um número bem inferior ao de décadas anteriores, mas que evidencia a amplitude da infraestrutura ainda existente.

A Alemanha segue como o principal centro dessa presença, com uma estimativa de 38.350 tropas dos EUA em seu território, distribuídas em bases que figuram entre as maiores do continente. A Base Aérea de Ramstein é o principal nó logístico da Força Aérea dos EUA na Europa e tem papel crucial no transporte estratégico de pessoal e material; sua atuação é complementada pela Base Aérea de Spangdahlem e por suas aeronaves de combate. Em Stuttgart ficam os quartéis-generais do Comando Europeu dos Estados Unidos (EUCOM) e do Comando para a África (AFRICOM), responsáveis por coordenar operações em duas regiões de grande relevância geopolítica. A esse conjunto somam-se centros de treinamento como Grafenwöhr e Hohenfels, usados com frequência por forças norte-americanas e aliadas.

Na segunda posição aparece a Itália, com cerca de 12.300 soldados dos EUA, consolidando-se como um pilar para a projeção de poder de Washington em áreas próximas. A Base Aérea de Aviano abriga capacidades avançadas de combate e é um dos principais pontos de partida para operações aéreas no Mediterrâneo e no Oriente Médio. Já a Estação Aeronaval de Sigonella, na Sicília, tornou-se um centro estratégico para vigilância, inteligência e emprego de sistemas não tripulados. Nápoles, por sua vez, concentra estruturas de comando da OTAN e da Marinha dos EUA, enquanto Vicenza atua como sede de unidades aerotransportadas de pronta resposta.

O Reino Unido ocupa o terceiro lugar em efetivos norte-americanos recebidos, com um contingente em torno de 10.000 homens. Instalações como as bases aéreas RAF Lakenheath e RAF Mildenhall sustentam operações de combate, transporte e reabastecimento em voo. A RAF Fairford, por sua vez, possui condições de receber bombardeiros estratégicos dos EUA em destacamentos temporários, reforçando a capacidade de dissuasão e de projeção global de Washington - quando suas instalações podem ser utilizadas.

Para leitores da Espanha, é importante registrar que o país ocupa uma posição estratégica nessa rede, funcionando como porta de entrada para os EUA, a partir do Atlântico, rumo ao Norte da África e ao Oriente Médio. A Base Naval de Rota é um dos pontos mais relevantes para operações navais norte-americanas no Mediterrâneo e abriga diferentes tipos de navios da US Navy. Em complemento, a Base Aérea de Morón facilita o rápido deslocamento de forças para as duas regiões mencionadas - novamente, quando a infraestrutura pode ser empregada. Em linhas gerais, as informações disponíveis indicam que essas sedes reúnem cerca de 3.700 soldados.

Além desses exemplos, é indispensável mencionar a Polônia como anfitriã de 10.000 tropas dos EUA, ao mesmo tempo em que concentra depósitos e nós logísticos decisivos para o envio de ajuda militar à Ucrânia. A Romênia também entra no quadro com cerca de 4.000 soldados; a Bélgica com 1.150 e a Turquia com 1.700. Os Países Baixos abrigam 400 homens; a Noruega, 1.100; a Grécia, 1.200; a Estônia, 600; Portugal, 250; e a Sérvia (Kosovo), 690. A lista se encerra com a Islândia, com um contingente de apenas 50 militares.

As capacidades nucleares dos EUA como guarda-chuva da Europa

Para além das tropas convencionais e das bases visíveis, um dos componentes mais sensíveis da presença norte-americana na Europa está ligado à dissuasão nuclear. Os Estados Unidos são um dos três membros da OTAN com essa capacidade - junto de França e Reino Unido. Esse arranjo é um dos principais legados da Guerra Fria, período em que Washington sustentava um modelo de dissuasão estendida que assegurava proteção nuclear a aliados europeus diante de qualquer agressão estratégica.

Hoje, o mecanismo mais conhecido dessa estratégia é a chamada “partilha nuclear”, em que os EUA mantêm bombas nucleares táticas do tipo B61 estacionadas em diferentes bases europeias; conforme estimativas de analistas, elas estariam localizadas na Bélgica, Alemanha, Itália, Países Baixos e Turquia. Embora permaneçam sob controle norte-americano, alguns aliados participam de procedimentos de planejamento e dispõem de aeronaves certificadas para um eventual emprego em circunstâncias extremas. É o caso de países que, nos últimos anos, incorporaram os caças furtivos F-35A da Lockheed Martin, modelo mais avançado ao qual os aliados europeus conseguem ter acesso atualmente para integrar esse esquema.

Quanto ao total de bombas B61 posicionadas na Europa, só é possível trabalhar com estimativas de think tanks e especialistas, já que se trata de informação classificada. O entendimento predominante - com base em fontes como a Federation of American Scientists (FAS) e o já citado Council on Foreign Relations - aponta para um lote entre 100 e 120 unidades. É, portanto, uma parcela mínima se comparada ao volume dos picos da Guerra Fria e também às mais de 5.000 armas nucleares que Washington teria, incluindo aquelas em reserva.

Dado o cenário descrito, mesmo sendo uma capacidade que pode parecer simbólica, a Europa também se depara com o problema de imaginar a perda desse guarda-chuva histórico oferecido pelos EUA - e a necessidade de substituí-lo com meios próprios. De acordo com a FAS, a França contaria com um estoque total de 370 unidades; já do outro lado do Canal da Mancha, o Reino Unido teria 225 armas nucleares. Ambos mantêm forte ligação nessa área, sustentando uma parceria que viabiliza coordenação de resposta conjunta diante de ameaças potenciais. Ainda assim, Paris seria a parte com maior autonomia, por dispor de armas empregáveis tanto a partir de submarinos quanto de aeronaves - opção da qual Londres não dispõe.

Incógnitas para o futuro: uma aliança indispensável, mas em transformação inevitável

A presença militar dos EUA na Europa - assim como a postura dos países europeus diante dela - está, sem dúvida, passando por um processo de redefinição cujo desfecho ainda não é claro. As bases norte-americanas tendem a seguir desempenhando um papel crucial para a segurança europeia no futuro previsível. Ao mesmo tempo, o debate sobre autonomia estratégica, as discussões sobre a divisão de encargos dentro da OTAN e as divergências quanto às crises internacionais mencionadas sugerem que a relação transatlântica está entrando em uma etapa distinta.

Para os próximos anos, não parece absurdo supor que os EUA prossigam com planos - já públicos há bastante tempo - de reduzir sua presença no continente, reposicionando os meios remanescentes para locais geograficamente mais próximos do flanco oriental da Aliança. A pressão política também deve aumentar sobre vários aliados da Europa Ocidental, sobretudo com um presidente Trump que já lançou mais de uma crítica a líderes europeus por se recusarem a permitir que forças norte-americanas utilizem suas bases na Operação Epic Fury, sinalizando um enfraquecimento da coesão interna do bloco em termos de interesses.

Também é plausível que, como resposta, a Europa procure dar continuidade a iniciativas voltadas a fortalecer sua base industrial de defesa e a ampliar a produção de equipamentos militares, contribuindo para recuperar uma autonomia que, segundo esse entendimento, nunca deveria ter sido perdida. Programas de reequipamento anunciados por diferentes governos, com apoio explícito da União Europeia, refletem uma consciência crescente sobre a necessidade de construir capacidades próprias para enfrentar um ambiente internacional mais instável. A eficácia real desses esforços, porém, continua sendo uma incógnita.

Em suma, na visão de quem escreve, as bases militares dos Estados Unidos seguirão sendo um componente essencial da segurança europeia nos próximos anos. Ainda assim, os debates sobre autonomia estratégica, as discussões sobre o compartilhamento de responsabilidades na OTAN e as divergências sobre como priorizar temas de segurança apontam para uma nova fase de tensões na relação transatlântica. Mais do que colocar em xeque a existência da Aliança - que historicamente trouxe benefícios aos dois lados do Atlântico -, essas mudanças forçam a renegociar os termos de uma cooperação militar que permanece indispensável para ambos, mas que já não pode ser tratada como garantida.

Imagens usadas apenas para fins ilustrativos

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