Crianças costumam se denunciar por detalhes corriqueiros. Um biscoito que some e, de repente, silêncio total. Um “não” com a cabeça quando recebem uma pergunta direta. Para muitos adultos, isso soa como travessura - ou até desonestidade.
Uma pesquisa recente, porém, indica que esse tipo de comportamento aparece bem antes do que muita gente imagina e segue um padrão claro conforme as crianças crescem.
Os cientistas observaram que as raízes da decepção surgem ainda na primeira infância. Não no mesmo sentido de “mentir” como os adultos entendem, mas em ações pequenas e simples que revelam que o bebé começa a perceber como outras pessoas pensam.
Com o tempo, esses primeiros sinais vão se encadeando e, quando a criança chega à idade pré-escolar, podem se transformar em formas mais complexas de enganar.
Quando a decepção começa
De acordo com o estudo, por volta dos 10 meses cerca de um quarto das crianças já começa a demonstrar que compreende a decepção. Aos 17 meses, esse total sobe para aproximadamente metade. Alguns pais relataram notar indícios ainda mais cedo, por volta dos 8 meses.
E, uma vez que esse comportamento aparece, ele deixa de ser algo raro. A pesquisa apontou que metade das crianças que já tinham começado a enganar havia feito alguma coisa “às escondidas” no último dia.
A frequência reforça um ponto central: não se trata de um impulso aleatório. É um componente do desenvolvimento.
O que as crianças pequenas realmente fazem
No início, a decepção tende a ser bem básica. Uma criança pequena pode fingir que não escutou quando um responsável chama. Pode esconder um objeto ou balançar a cabeça para negar algo que claramente fez.
Essas atitudes não dependem de grande domínio de linguagem, mas sugerem intenção.
Por volta dos dois anos, o comportamento fica mais dirigido. Algumas crianças espiam dentro de uma bolsa que foram orientadas a não mexer ou inventam desculpas rápidas para escapar de tarefas.
Dizer que precisa ir ao banheiro para não arrumar a bagunça é uma justificativa comum.
O trabalho foi conduzido pela professora Elena Hoicka, da Universidade de Bristol, em colaboração com investigadores de várias instituições, incluindo as universidades de Oxford, Sheffield, Warwick e Waterloo, no Canadá.
Como a decepção cresce com a idade
Quando chegam aos três anos, o cenário muda. A capacidade de entender o que os outros pensam se fortalece e as habilidades linguísticas avançam - e isso abre espaço para formas mais elaboradas de decepção.
Nessa idade, crianças podem aumentar o próprio mérito ou diminuir a gravidade do que fizeram. Podem inventar histórias completas. Também conseguem omitir detalhes importantes ao dizer a verdade, moldando o relato para que pareça melhor para elas.
“Isso pode significar exagerar, como dizer ‘Eu comi todas as minhas ervilhas’ quando só comeram um quarto, minimizar ou até mesmo inventar completamente, como contar uma mentira do tipo ‘um fantasma comeu o chocolate’, assim como fingir que não sabem, não veem ou não entendem”, disse a professora Hoicka.
“Elas também começam a reter informação, por exemplo dizendo corretamente aos pais que o irmão bateu nelas, mas omitindo o fato de que elas bateram no irmão primeiro.”
“Crianças de três anos também começam a usar distração, como dizer a alguém ‘Olha ali!’ quando querem fazer algo que não deveriam.”
De onde vem esse comportamento
Durante anos, muitos especialistas defenderam que a decepção exigia pensamento avançado e fortes habilidades de comunicação. Essa ideia agora está mudando. Ao observar como certos animais agem, pesquisadores passaram a reavaliar em que momento a decepção poderia aparecer.
“Pesquisas anteriores muitas vezes se concentraram na decepção como algo muito sofisticado, que exige fortes habilidades linguísticas e um entendimento avançado da mente dos outros”, disse a professora Hoicka.
“Ao considerar como a decepção ocorre em animais, incluindo chimpanzés, macacos-prego, antílopes e aves, e aplicar isso a crianças pequenas, conseguimos documentar as primeiras formas muito mais precoces de decepção em crianças pequenas - e, ao que parece, isso começa muito cedo mesmo.”
Essa visão mais ampla ajudou a equipa a identificar 16 tipos diferentes de decepção ao longo da primeira infância. Eles vão desde a simples negação até estratégias mais avançadas, como distrair e dizer verdades de forma seletiva.
O que isso significa para os pais
Para muitos pais, a palavra “decepção” vem carregada de conotações negativas. Pode dar a sensação de que algo saiu do rumo. O estudo sugere o contrário.
“Foi fascinante descobrir como o entendimento e o uso da decepção pelas crianças evolui a partir de uma idade surpreendentemente jovem e se constrói nos primeiros anos, de modo que elas se tornam ‘pequenos mentirosos’ bastante habilidosos e astutos”, disse a professora Hoicka.
Ela também acrescentou uma observação pessoal: “Como mãe de três crianças, posso certamente confirmar o quanto elas podem ser criativas e manhosas. Esconder-se debaixo da mesa ou no banheiro para comer doces ou chocolate é o truque comum delas.”
Os resultados trazem um alívio: enganar não é apenas sinal de mau comportamento. Isso também reflete crescimento de consciência, capacidade de resolver problemas e entendimento social.
Segundo a professora Hoicka, o estudo é especialmente útil para pais e educadores. “Em primeiro lugar, os pais podem ficar tranquilos: a decepção é totalmente normal no desenvolvimento de crianças pequenas.”
“Eles também podem consultar nossos achados para saber quais tipos de decepção esperar por idade, para entender e se comunicar melhor com seus filhos e, assim, ficar um passo à frente das suas artimanhas.”
Uma perspetiva mais ampla sobre a decepção
Há muito tempo, seres humanos discutem a ética de mentir. Observar como isso aparece nas crianças adiciona uma camada nova a esse debate.
“Filósofos há muito refletem sobre a moralidade da decepção humana, mas sempre focando em adultos enganando uns aos outros. Este estudo mostra quanta complexidade acaba sendo ignorada por esse foco”, disse a professora Jennifer Saul, coautora da Universidade de Waterloo.
No fim, a decepção não é algo que simplesmente surge mais tarde. Ela se forma aos poucos, desde os primeiros estágios do desenvolvimento, influenciada por curiosidade, percepção e interação com outras pessoas.
O estudo completo foi publicado na revista Desenvolvimento Cognitivo.
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